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  Posse de Marcos Maciel  
   
 
Na imortal peça Diálogo das Carmelitas, o sempre lembrado escritor francês George Bernanos – tão ligado ao Brasil pelo tempo em que viveu no interior de Minas Gerais, durante a ocupação de seu país pelas tropas alemãs – fez a superiora do Convento dizer estas sábias palavras: “o que chamamos acaso talvez seja a lógica de Deus”.

Não tenho a pretensão de chegar ao extremo de considerar como intervenção divina o fato de haver sido pernambucano o primeiro ocupante da cadeira que tem como patrono o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen. Nem tampouco igualmente ouso comparar-me ao também insigne historiador Manoel de Oliveira Lima. Nanja!

Impensável, todavia, negar a existência de um ufanismo pernambucano, que nada possui da retórica romântica desencadeada pelo Conde Afonso Celso em seu livro Porque me ufano do meu país, publicado em 1900. Nosso ufanismo é muito mais antigo, surgido no século XVII com a expulsão dos holandeses, numa guerra planejada e realizada inteiramente à revelia da coroa portuguesa, disposta a negociar o Nordeste brasileiro. Um dos livros básicos sobre o assunto – o do monge beneditino e meu ilustre conterrâneo Domingos do Loreto Couto – intitula-se significativamente Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. Por isso, ao prefaciar o livro de Gilberto Freyre Região e Tradição, editado na década de quarenta, o saudoso romancista José Lins do Rego escreveu que o povo pernambucano foi “capaz de expulsar os holandeses e fazer o carnaval mais alegre do mundo”.

No século XIX, os pernambucanos voltaram a lutar contra a opressão, dessa vez exercida pela própria metrópole, em duas “revoluções libertárias”, como as chamou o poeta Manuel Bandeira no poema Evocação do Recife. A guerra dos mascates, uma guerra de “afirmação nacionalista”, como observou Mário Melo – e as revoluções de 1817 e 1824 também suscitaram uma obra clássica de nossa historiografia: Os Mártires pernambucanos, do Padre Joaquim Dias Martins, somente publicada em 1854, mas escrita vários anos antes. Saliente-se, por oportuno, a insuspeição do autor, que era português. Temos, portanto, ali e acolá, razões de sobra para nos orgulhar de nossa pernambucanidade, palavra inventada pelo mestre Gilberto Freyre para caracterizar o nativismo de Pernambuco, tão precisamente interpretado por Oliveira Lima.

Oliveira Lima tinha apenas vinte e sete anos de idade e estava no início da carreira diplomática, quando publicou a primeira obra Pernambuco, seu desenvolvimento histórico, justamente a respeito de sua amada província. Alguns autores se envergonham dos primeiros livros, por eles considerados “pecados da mocidade”. Não foi esse o caso de Oliveira Lima, em cujo livro de estréia já se revela o eminente e atilado pesquisador, que ultrapassou o mestre Varnhagen na apreciação crítica de nossa literatura colonial e em outros estudos literários – um deles sobre Machado de Assis –, na síntese de nossa formação histórica, na interpretação da cultura das nações em que serviu como diplomata – no Japão, nos Estados Unidos da América do Norte e na Argentina –, e, especialmente, na monumental biografia D. João VI no Brasil. Como historiador, evitou a retórica dos antecessores, apresentando Pernambuco tanto no contexto brasileiro como no cenário internacional.
Senhor Presidente,

Ao cumprir o rito de entrada, passo a desfrutar da honra de sentar-me entre vós. Esta Casa desde seu nascimento mantém-se fiel aos elevados propósitos de guardar “a cultura da língua e da literatura nacional”, conservar a tradição sem abandonar-se à rotina, viver imersa na história das transformações que se operam no Brasil e no mundo.

Expresso, por essas razões, a gratidão, testemunho pleno de minha consciência e cálido sentimento de meu coração, pela generosa acolhida que me dispensastes, estimados acadêmicos, ao incorporar-me, de maneira tão desvanecedora, ao vosso convívio.

Exercitar esta comunhão, plenitude da vida, “é – como profetizava o poeta João Cabral – ir entre o que vive”, transformar coexistência em convivência, prática aliás aqui observada desde seus albores, entre aqueles que laboram nos mais variados territórios dos gêneros literários, inclusivamente, se não estou sendo heresiarca, o discurso parlamentar como manifestação cultural que em muitos casos realiza a interseção entre a forma literária e o conteúdo político.

Talvez este tenha sido o motivo de haver Joaquim Nabuco afirmado “nós não podemos matar no literato, no artista, o patriota, porque sem a pátria, sem a nação, não há escritor e com ela há forçosamente o político”, advertindo, porém, o autor de Um Estadista do Império, “para a política pertencer à literatura e entrar na Academia é preciso que ela não seja o seu próprio objetivo; que desapareça na criação que produziu, como o mercúrio nos amálgamas de ouro e prata”.

Espaço da palavra, aqui se exercita no perpassar de sua densa história a artesania da liberdade, através da qual se busca entre o que separa aquilo que nos pode unir, porque se queremos viver juntos na divergência, que é princípio vital da democracia, estamos condenados ao entendimento, sob pena de transformar idéias antagônicas em soluções agônicas.

Apreciar a firmeza das convicções, mesmo quando não são as nossas convicções, pressupõe acreditar no poder das idéias que, antes de ser um empecilho, devem concorrer para melhorar o convívio humano.

É o que diz Norberto Bobbio, no prefácio de Italia Civile: “Aprendi a respeitar as idéias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar”.
Como acontece nas Casas homólogas, nesta Academia a sucessão é ideográfica: não se estabelece vinculação entre patrono, antecessor e sucessor por gênero literário ou qualquer outro liame, seja por profissão, seja por pertencer a qualquer estado de nossa Federação. Não existe, a qualquer título, cadeira cativa. João Neves da Fontoura, ao receber Aníbal Freire, frisou que a ABL “sempre se recusou a fazer distinções ou estabelecer categorias de dogma, que Renan denominou de ‘unidade da glória”. Prossigo citando João Neves da Fontoura: “Como disse o maravilhoso estilista d’“A Vida de Jesus”: “Vós considerais que o poeta, o orador, o filósofo, o sábio, o político, o homem que representa, em sua plenitude, a civilidade de uma nação, aquele que ostenta dignamente um desses nomes que são sinônimos de honra e de pátria, todos esses são confrades a trabalhar para uma obra comum...”.

Constata-se, entretanto, com relação à cadeira 39, algo que parece ser a exceção que confirma a regra. Desde seu primeiro provimento, a cadeira ostenta uma característica comum, a de haver, a partir do patrono Varnhagen, sido eleitos renomados historiadores, Oliveira Lima, Alberto de Faria, Rocha Pombo e Rodolfo Garcia, ou por acatados jornalistas, Elmano Cardim, Otto Lara Resende e Roberto Marinho.

Coube-me a dupla graça de ocupar a cadeira cujo fundador é o meu conterrâneo Oliveira Lima e o último ocupante o ilustre jornalista Roberto Marinho.

Atribuo tão imerecido regalo à mão do Criador, para quem, já se disse “nada é coincidência, tudo é providência”.

Conquanto não tenha sido o primeiro a escrever sobre o Brasil – antes já o haviam feito, entre outros, Frei Vicente de Salvador, Southey, Pêro Gândavo –, ninguém pode negar a Francisco Varnhagen, Barão e Visconde de Porto Seguro, ter imprimido caráter à cadeira 39 com o título de “pai da historiografia brasileira”, que lhe foi conferido por João Francisco Lisboa.

Partiu de Oliveira Lima a acertada indicação do nome de Varnhagen para padroeiro. O autor da História Geral do Brasil, de fato, foi, como afirma o proponente: “sem contestação o criador da história da pátria, se não em sínteses luminosas, pelo menos na comprovação essencial; é tão-somente com respeito que devemos encarar essa figura saliente da nossa literatura, posto sejamos forçados pela justiça a salpicar das reservas indispensáveis em todo estudo a nossa legítima admiração perante ela”.

E prossegue: “O fato é que os fastos literários se não ufanam entre nós de um historiador parecido com qualquer dos espíritos superiores de cujos nomes fiz menção. Francisco Adolfo de Varnhagen foi por certo o mais notório e o mais merecedor dos estudiosos do passado brasileiro: foi um ardente investigador, um infatigável ressuscitador de crônicas esquecidas nas bibliotecas e de documentos soterrados nos arquivos, um valioso corretor de falsidades e ilustrado colecionador de fatos”.

Francisco Adolfo de Varnhagen, de origem germânica e educação portuguesa, nasceu em São Paulo; serviu como tenente de Artilharia no Exército de Portugal; e talvez por estar em sintonia com seus homólogos brasileiros, que consideram como arma de fogos profundos, largos e poderosos, sua obra caracterizou-se pelo poder de seu pensamento, pela profundidade de sua pesquisa e pela larga riqueza documental.

Seu sentimento de nacionalidade se manifesta inclusive nos trabalhos que exitosamente realizou para descobrir, em Portugal, o túmulo de Pedro Álvares Cabral no Convento da Graça, em Santarém.

Diplomata, soube conciliar o exercício das missões no exterior, como o fez em Portugal e Inglaterra, com o ofício de historiador para aprofundar pesquisas e estudos do nosso passado em sua devoção pelo Brasil.

Aliás, com isso, Varnhagen objetivava, consoante suas palavras, transcritas no discurso de posse de Oliveira Lima nesta Casa: “formar e melhorar o espírito público nacional e foi sem tergiversações que desempenhou este papel de moralista, na acepção mais elevada da palavra, a saber, do historiador que faz servir a história de ensinamento para os seus contemporâneos, porque, como Varnhagen disse algures, ‘o presente não é mais do que a repetição do passado’”.

A “qualité maitresse” da cadeira se mantém em seu fundador, com Oliveira Lima, acatado historiador, diplomata, professor, crítico literário, bibliófilo e jornalista, a quem já tive ensejo de referir-me.

Ao escrever No Japão, ao tempo que se encontrava em Tóquio, em fins do século XIX, com a missão de instalar a legação brasileira naquele país, Oliveira Lima demonstra uma atilada percepção a respeito do papel que a nação japonesa iria ocupar no mundo.

Colaborou com jornais de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo; e no campo político, foi republicano durante a Monarquia e monarquista após a proclamação da República, por divergir dos rumos que tomara o Movimento de 1889. Poder-se-ia classificar Oliveira Lima como dotado de “uma índole de controvérsia”, como se autodefiniu o acadêmico Assis Chateaubriand.

Sua obra mais importante é indubitavelmente a biografia Dom João VI no Brasil, por traçar-lhe um retrato fiel e um quadro preciso do Brasil do seu breve reinado.

Desiludido com a carreira diplomática, aposentou-se e foi morar nos Estados Unidos. Lá passou os últimos anos de sua vida, lecionou, legou sua biblioteca, acervo estimado em 40 mil volumes e outras artes, para a Universidade Católica da América, com sede em Washington. Em lápide de granito pernambucano, está inscrito o seu lacônico epitáfio: “Aqui jaz um amigo dos livros”.

Com a eleição de Alberto de Faria, a cadeira 39 segue ocupada por historiador.

Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, exerceu a profissão e foi também jornalista, produzindo artigos de natureza política inclusive, valendo destacar textos relativos ao candidato Arthur Bernardes à Presidência da República.

Sua principal obra, talvez por haver sido empresário, foi a biografia de Irineu Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá, publicada em 1926.

Ao ingressar na Academia, expôs a sua satisfação em resgatar a memória de Mauá. “Coube-me – expressou em seu discurso de posse – a fortuna de poder reunir papéis que se perdiam, documentos que se consumiam, de reavivar tradições que iam desbotando, a tempo de fixar as linhas desse vulto extraordinário em estudo que eu mesmo espero completar e que outros hão de embelezar”. Recebido por Hélio Lobo, dele mereceu, sem ser encomiástico, o seguinte elogio a obra: “Em Mauá vistes bem o caráter e a ação, aquele direito em seu rumo, está obrando prodígios para época tão noviça. Mais adiante vem salientar o comovedor procedimento que Mauá teve ao ensejo de sua concordata”: “Não conheço, na trama esplêndida, coisa mais bela do que a entrega de bens pessoais à concordata, numa renúncia total para salvação do que lhe importava acima de tudo, a honra”.

Além do trabalho sobre Mauá, Alberto de Faria publicou “Política Fluminense e A questão do Banco Hipotecário do Brasil, havendo pronunciado nesta Academia, a respeito de Rio Branco, palestra ainda hoje muito apreciada. No governo de Washington Luís, foi designado para o cargo de Embaixador do Brasil em Tóquio, não chegando contudo a assumi-lo.

José Francisco da Rocha Pombo, paranaense de Morretes, é autor da História do Brasil, sua obra mais importante. No Colégio Nóbrega do Recife, dirigido por jesuítas, onde estudei, era o livro freqüentemente citado.

Rocha Pombo, nome pelo qual se tornou conhecido, exerceu atividades no magistério, no jornalismo e na política, nesta como deputado provincial (correspondente hoje a estadual), pelo estado de seu nascimento.

Polígrafo, é autor de História do Paraná, História de São Paulo e História do Rio Grande do Norte. Escreveu Nossa Pátria, várias vezes reeditada, o Dicionário de Sinônimos e contos; além de um romance ou, para alguns críticos literários, novela, intitulada No Hospício, na vertente do simbolismo.

Iniciou o movimento para instalação da Universidade Federal do Paraná nos fins do século XIX, que somente se tornou realidade com a República.

Eleito para a Academia Brasileira de Letras em março de 1933, antes de empossar-se faleceu no Rio de Janeiro e ora lhe presto a devida reverência da saudade.

Nascido em Ceará-Mirim, Rio Grande do Norte, Rodolfo Garcia foi escolhido para a cadeira 39 em 1934, após o desaparecimento de Rocha Pombo.

Diplomou-se bacharel pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, projetando-se como historiador, jornalista, professor e filólogo.

Hostilizado por Dantas Barreto, por críticas no Diário de Pernambuco ao seu governo, sob o pseudônimo de Sargento da Guarda, Rodolfo Garcia transferiu-se na segunda década do século XX para o Rio de Janeiro. Amigo de Capistrano de Abreu, com quem trabalhou na tarefa de anotar a 3ª edição da História Geral do Brasil, de Varnhagen, completou com denodo e esmero as Efemérides Brasileiras, de Rio Branco, então inconclusas.

Entre as suas principais obras, salientaria o Dicionário de Brasileirismos”. Na introdução do trabalho, o autor opina lucidamente: “De importância incomparavelmente menor para a evolução glotológica do português no Brasil foi o contingente prestado pelos idiomas africanos para aqui transportados com os escravos pelo tráfico negreiro. Ainda assim, a raça infeliz que foi o principal fator do nosso progresso econômico, até além de meados do século passado, contribuiu para a linguagem brasileira com um vasto acervo de vozes designativas de utensis do serviço agrário, mineiro e doméstico, de várias espécies de iguarias, de plantas e animais, em uso constante na elocução familiar, chegando mesmo algumas a transpor os lindes da rusticidade para que se incorporem ao léxico literário”. Ao analisá-la, no discurso de posse na Academia, Elmano Cardim diz ser “um excelente esboço que revela a influência da explicação geográfica, tão em voga na época de sua formação mental e mostra, ainda, a decisiva autoridade de Varnhagen, o primeiro a frisar a necessidade do estudo das línguas indígenas”.

Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Diretor do Museu Histórico Nacional e da Biblioteca Nacional, apelidada, à época, de Academia garciana, em virtude das reuniões que informalmente promovia, para discussão de assuntos culturais.

Publicou inúmeros trabalhos, além dos referidos, tais como Nomes de aves em língua tupi, Notas a um dicionário-corográfico, histórico e estatístico de Pernambuco, juntamente com Aprígio Garcia, seu irmão, e artigos em revistas sobre assuntos de sua especialidade.

Como notara Levi Carneiro, a eleição de Elmano Cardim interrompe a seqüência de historiadores na cadeira 39. Na sua oração de posse, o novo acadêmico, um jornalista, pontua que “o fiat da história está contida no subsídio cotidiano do jornal. O fato, alimento diário da imprensa, constitui, depurado das suas emoções a substância da História. Encadeado na seqüência de suas relações, fixa-se nas cores prismáticas que marcam a tonalidade de um momento na transição do efêmero para o duradouro. Quando o historiador o encontra assim estratificado pelo tempo, tem ao seu dispor a matéria-prima para a interpretação de uma época ou para a determinação de um ciclo da evolução da humanidade”.

Levi Carneiro, em seu discurso de saudação ao recebê-lo, discrepa desse entendimento: “Em certo sentido, a imprensa e a história parecem-me quase antagônicas, de sentido e objetivos diversos”. E acrescenta ser o jornalista “antes, um protagonista, um personagem da história, participando dos episódios, influindo neles”.

É de ressair que, além de jornalista, o seu novo ocupante agrega à memorialística pátria expressivas contribuições, como Vidas Gloriosas, Graça Aranha e o Modernismo no Brasil, Joaquim Nabuco, Homem de Imprensa, Na Pauta da História, A Vida Jornalística de Rui Barbosa e Justiniano José da Rocha, originada de conferência feita no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em comemoração ao centenário de morte do periodista e homem público do Segundo Reinado. Para Elmano Cardim “Justiniano José da Rocha teve, no período em que escreveu os seus jornais, uma indiscutível influência nos acontecimentos políticos que se desenrolaram no país. Com sua inteligência e sua cultura, servindo à causa de um partido, muito contribuiu para que na consciência nacional se consolidassem os princípios e postulados que haviam de assegurar à democracia brasileira uma continuidade que não sofreu com a mudança do regime em 1889, nem se alterou com as crises tantas vezes surgidas depois da vida republicana”.

Natural de Valença, município do Rio de Janeiro, Cardim era advogado, tendo desempenhado cargos públicos no Arquivo Nacional e participado do staff de seis ministros de Estado de diferentes governos e do gabinete do Presidente Café Filho.

Reconhecido como figura de bom trato, a Elmano Cardim, segundo Abgar Renault, se encaixaria com perfeição o brocardo português: “Homem de uma só palavra, homem de um só parecer, antes de quebrar que de torcer”.

Otto Lara Resende, mineiro de São João del Rei, berço também do Presidente Tancredo Neves, nasceu, como se diz no dialeto da engenharia genética, com a profissão de jornalista em seu dna. Seu pai, professor de português e autor de uma gramática da língua portuguesa, era jornalista e fundou A Tribuna em sua terra.

Jornalista a partir dos dezesseis anos, Otto lembra o Cardeal de Retz: “há coisas impossíveis que só certos homens conseguem fazer; um jornal tem de ser obra deste gênero de homens – o animador, capaz de recrutar, congregar e motivar uma equipe de profissionais reunidos em torno de alguma coisa mais alta do que as mesquinhas vaidades e bem para lá das paupérrimas ambições materiais. O jornal tem alma; tem uma dimensão moral e cultural, por mais escondida que esteja na liça braçal de todo dia. ‘ O jornal é um ser vivo. Age e reage como um ser vivo’ – escrevia Edgar (da Mata Machado), no ‘O Diário de Belo Horizonte’, há quase indeléveis quarenta anos”.

Formou-se em Direito e desempenhou funções públicas no Brasil e no exterior como adido cultural em Portugal e na Bélgica.

Seu talento de escritor se revela no romance O Braço Direito, na novela A testemunha silenciosa e, de modo especial, no conto, com os livros O Lado Humano, Boca do Inferno, A Cilada, As Pompas do Mundo entre outros e, no campo da memória, O Príncipe e o Sabiá e outros perfis.

Iniciou-se no jornalismo através de Hélio Pelegrino. Genial frasista, mercê da riqueza estilística, juntamente com os amigos Pelegrino, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, todos das Alterosas, que integrou “os quatros cavaleiros de um íntimo apocalipse” – como se auto-designavam.

No Rio de Janeiro, trabalhou em importantes jornais (Jornal do Brasil e O Globo) e revistas (Manchete e Fatos e Fotos), fez jornalismo político e seus artigos, muitas vezes caústicos, versavam sobre temas da atualidade.

Para Machado de Assis, as circunstâncias são também fadas madrinhas. Com efeito, elas ajudam a tecer o acaso com invisíveis sinais que permitem descobrir um continuum, isto é, uma linha comum, que exibe ao longo do tempo uma identidade entre Varnhagen e os sucessivos titulares da cadeira 39. Malgrado as acentuadas diferenças entre as duas profissões, é cediço apontar uma certa simbiose entre historiadores e jornalistas, pois se semelham no registro dos fatos e na interpretação dos acontecimentos. O jornalista – aceitai a heterodoxia – em alguns casos seria o historiador com o verbo no tempo presente.

No caso desta cadeira, – acode-me ainda o fato de os jornalistas Elmano Cardim, retratando a figura de Justiniano José da Rocha; Otto Lara Resende, com O Príncipe e o Sabiá, e finalmente Roberto Marinho em Uma Trajetória Liberal, haverem feito incursões no terreno das memórias.

E, como dilucidou André Maurois, toda biografia toca à história, pela reconstituição do momento em que se situa a vida da figura evocada.

Senhor Presidente,

“O ato de escrever – afirmou com propriedade Adonias Filho – é o mais público de todos os atos”.

Isso me leva a destacar, na linhagem da cadeira em que me invisto, outra ainda mais saliente característica comum. Pairando acima da formação intelectual dos seus ocupantes, desvela-se uma estirpe de homens públicos, porque todos atentos à res publica, res populi. Cícero, o romano, em obra seminal sobre o assunto (De Republica I, 25), foi o primeiro a conceituar o sentido de res publica, ao estabelecer que há de considerar-se povo “não como toda reunião de pessoas, de qualquer forma congregadas, mas um consórcio sob a égide do Direito, pelos interesses comuns almejados pelas sociedades”. Nicola Matteucci, no Dicionário de Política, comenta: “é uma palavra nova para exprimir um conceito que corresponde, na cultura grega, a uma das muitas acepções do termo politéia, acepção que se afasta totalmente da antiga e tradicional tipologia das formas de governo. Com efeito, ‘res publica’ quer pôr em relevo a coisa pública, a coisa do povo, o bem comum, a comunidade, enquanto que, quem fala de monarquia, aristocracia, democracia, realça o princípio de governo”. Cracia, isto é, poder, autoridade.

Na semântica dos nossos tempos, esta palavra encontrou atualidade em Rui, ao dizer: “A Pátria não é ninguém, são todos; cada qual tem no seu seio os mesmos direitos à idéia, à palavra, à associação”. República é assim a cidadania, a coisa do povo, o bem comum.

Inspirado num humanismo integral, o tomismo de Jacques Maritain agrega ao tema uma valiosa contribuição ao inocular no tecido da cidadania o conceito de valor, conferindo-lhe um conteúdo ético pela defesa da liberdade de consciência, sem desbordar no relativismo, e garantia da dignidade de toda pessoa humana.

É com essa concepção que se pode definir a política como ciência, virtude e arte do bem comum.

Tudo assim concorre, na minha opinião, para conferir, na estadística moderna, enquanto ciência de Estado, a condição de homem público a todos quantos, mesmo não havendo exercido função pública ou disputado mandato eletivo, se tenham empenhado no serviço do bem comum.

A vida pública, antes de ser uma profissão, é e deve ser uma atitude de vida a exigir não o diletantismo, mas, como propunha Nabuco, “o interesse vivo e palpitante no destino e na condição alheia”.

Em abono desse entendimento, recordo palestra de cunho autobiográfico de Affonso Arinos de Melo Franco, na Universidade de Brasília: “O homem público não é apenas (o grifo é nosso) o que participa da vida pública no sentido de atividade política. O homem público é o que exerce funções ligadas à coletividade, o que inclui o professor, o escritor, todas as formas de submissão da personalidade a um estilo coletivo”.

Sem estar contaminado, imagino, pela “doença da admiração” que, segundo o historiador Thomas Macauly, afeta os memorialistas ao biografar vultos, desejo, sem a pretensão de ineditismo ou de originalidade, destacar alguns aspectos essenciais da estuante vida de meu ilustre predecessor, Dr. Roberto Marinho.

Coerente com a observação anterior, insisto em vê-lo como um homem público inserido na gassetiana moldura das circunstâncias de nossos atribulados tempos. Enfim, um cidadão republicano que vive o século em parceria com o Brasil.

Teve no pai, e dentro da própria casa, o melhor dos paradigmas – na síntese lapidar de Josué Montello ao recebê-lo na Academia.

Irineu Marinho fundou em 1911 o jornal A Noite, que tinha sede no Largo da Carioca, de cujo Conselho Diretor se retira em 1924. Ano seguinte, lança, em duas edições diárias, o também vespertino O Globo – nome, ressalte-se, escolhido pelos cariocas no concurso “o batismo da simpatia popular”. Seu pai falece vinte e quatro dias após o início da circulação do jornal.

Roberto Marinho, revelando precoce maturidade, ao invés de assumir as funções de Diretor como filho mais velho, conforme apelo de sua mãe, prefere elevar à chefia do jornal o Secretário de Redação Eurycles de Matos, que permaneceu no cargo cerca de cinco anos. Quando este faleceu, diz Franklin de Oliveira: “Roberto Marinho já tinha o domínio completo do fazer jornalístico. Chegava à redação às 4 horas da manhã e só a deixava à noite. Conhecia profundamente todos os segredos da profissão – do editorial ao flagrante de rua, da grande reportagem à notícia mais singela – além de dominar, com seu senso estético, a produção gráfica do jornal, da diagramação à tipologia”.

A palavra experiência possui em latim a mesma raiz etimológica de perigo e de prova (por extensão), como explicam os autorizados Ernout-Meillet, em seu Dicionário etimológico da língua latina. Desde muito cedo, pois, Roberto Marinho enfrentara riscos e desafiara incertezas e assim acumulara uma boa porção do saber feito, o que muito o ajudou a, camonianamente, entender essa estranha máquina que se chama mundo.

Sua conduta parecia inspirar-se na sabedoria de Fernando Pessoa, expressa através de seu heterônimo Ricardo Reis:
“Para ser grande, sê inteiro, nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo um cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes”.

Dr. Roberto Marinho encarnava as três qualidades designadamente importantes, segundo Max Weber, para definir a personalidade do homem público: “sentido de responsabilidade”, “senso de proporção” e “paixão”. “Sentido de responsabilidade” manifestado ainda jovem no batente do jornal; “senso de proporção” por compatibilizar seus projetos com as aspirações nacionais; e, finalmente, “paixão”, concebida não como atitude interior que Jorge Simmel chamava de “excitação estéril”, senão como entrega total, integral, à causa que abraça. Paixão foi o que não faltou ao Dr. Roberto Marinho!

Cidadão múltiplo, abrigava várias pessoas em sua personalidade – o jornalista e o escritor, o empreendedor, o amante da cultura e protetor da natureza, o acadêmico e, por mais relevantes que sejam todos esses títulos, o homem público, conquanto jamais haja diretamente desempenhado funções governamentais.

Visão e capacidade de trabalho, coragem e obstinação são qualidades ínsitas no metabolismo dos grandes líderes. Tal como um dodecaedro – figura geométrica de doze faces e que, simbolicamente, exprime uma síntese perfeita –, a tudo isso aliava Roberto Marinho sua excepcional vocação para conceber e executar projetos, simultaneamente e em diferentes áreas, a que se juntava um notável empenho em estabelecer enlaces com todos e cada um.

Possuía o dom – perdoai-me a expressão – de conglobar, a um só tempo, atividades e empreendimentos.

Mendès-France, primeiro-ministro da França, cerca de cinco décadas atrás, ponderou lapidarmente que “governar é escolher”. Essa regra de ouro pontuava a competência gerencial do Dr. Roberto.

O seu empreendedorismo revela talento na seleção dos projetos e sabedoria na escolha da equipe de auxiliares, recrutando-os segundo critérios de competência e sem indagar vinculação política, credo religioso ou convicção ideológica, mesmo nos períodos mais agudos de censura à imprensa. Ademais, delegava funções, mormente nas áreas caracterizadas por especializados conhecimentos técnicos, e abria espaço para o surgir de novos quadros, contribuindo para ampliar e qualificar o mercado de trabalho nesse setor estratégico das tecnologias do futuro, já incorporadas ao nosso tempo.

É de se observar que, ao longo de sua existência, Roberto Marinho foi um antecipador, ao valer-se dos recursos que o progresso tecnológico ensejava para expandir sua presença na área da comunicação social.

Por exemplo, ainda na década de quarenta do século passado e em plena Segunda Grande Guerra, Roberto Marinho inaugurava uma emissora de rádio, então o mais moderno veículo de difusão.

O mesmo ocorre na segunda metade do século XX: ingressa na videoesfera, obtendo em 1957 concessão para instalar uma emissora de televisão que vai ao ar em 1965, embrião da futura TV Globo. A seguir, constitui uma rede nacional e começa a exportar inicialmente produtos para a América Latina.

As Organizações Globo, então designadas por já incluírem jornal, rádio e televisão, partem para o setor de discos e, através de editoras, lançam livros e revistas especializadas – Casa, Globo Rural, Galileu, Criativa, entre outras –, e em 1998, Época, dirigida para assuntos de múltiplos interesses.

Novos veículos da mídia gutenberguiana passam a ser editados ou incorporados, como Extra e Diário de São Paulo, ambos de circulação regional; o jornal Lance para os desportistas; e o Valor, dedicado a assuntos econômicos e negócios, em sociedade com a empresa que edita a Folha de S.Paulo.

Permanentemente atento às inovações, transpõe o território das tecnologias analógicas para ingressar no mundo digital com a Globosat, programadora de TV por assinatura; a Net Brasil, multioperadora de TV por assinatura a cabo; Sky, TV por assinatura via satélite; e o lançamento do Globo.com, portal das Organizações Globo na Internet, entre vários outros empreendimentos.

É de se recordar que as suas empresas, ao saírem da grafosfera para a videosfera, ajudaram a integrar o País, até então um arquipélago, no qual não se conseguia falar ao telefone senão com dificuldade e um telegrama demorava dias para chegar ao destinatário. Essa meta levou Dr. Roberto a dizer, no livro Uma Trajetória Liberal: “Somos um país de dimensões continentais, distribuído entre regiões distantes e distintas, ainda que indissoluvelmente ligadas por uma quase milagrosa unidade nacional. A era eletrônica veio fortalecer e aprofundar essa unidade. Mais ou menos como em toda parte, o rádio e a televisão no Brasil são hoje onipresentes. Constituem um traço de união e contribuem, decisivamente, para a integração nacional”. E mais: a qualidade da equipe e dos equipamentos veio a permitir à sociedade brasileira desfrutar de comunicação social de primeiro mundo para todo mundo.

A educação, questão ainda não resolvida no Brasil, o que somente poderá ser vencida geminando governo e sociedade, preencheu igualmente o universo das aspirações cívicas de Dr. Roberto Marinho. Citem-se, a propósito: a Fundação que ostenta o seu nome, entidade privada sem fins lucrativos, com o objetivo de atuar na área da educação, patrimônio cultural e meio ambiente; a Globotec (Sistema Globo de Tecnologia Educacional Ltda.), que produz vídeos educativos; o Telecurso 2º Grau e o Canal Futura, este dedicado 24 horas por dia, exclusivamente ao campo da educação. Isto sem adicionar as campanhas voltadas para a criança carente.

Seu interesse pela cultura – quer erudita, quer popular – foi igualmente notável. Situarei entre muitos que poderiam ser aqui feridos, um ponto que contribuiu também para melhorar significativamente a nossa imagem no exterior: a dramaturgia. Ninguém desconhece que as novas técnicas de espetáculo e o aparecimento do cinema e da TV foram fundamentais para a renovação da linguagem cênica e dramatúrgica. O espetáculo libertou-se do palco e transcendeu a ação linear.

O espaço que a TV Globo ofereceu ao autor, diretor, elenco, técnicos, enfim a todos nesse setor, foi fundamental. Processou-se uma revolução na telenovela brasileira, atingindo padrões de elevada qualidade, tanto de texto, quanto de imagem.

Essa calculada ousadia de Dr. Roberto Marinho fez brotar no Brasil uma nova dramaturgia, que encontrou seu ápice nos casos especiais e seriados. De mais a mais, as novelas, que chegaram a mais de cem países, deram enorme projeção ao Brasil.

Em visita oficial à China, representando o governo brasileiro, ouvi de professores e estudantes da Universidade Fudan comentários comovedores de nossa história que tomaram conhecimento através de novelas como Escrava Isaura.

Infenso ao solilóquio, Dr. Roberto sabia cultivar o diálogo, sempre presto para ouvir e somítico no falar, pois se “viver é a arte do encontro”, como versejou Vinícius de Moraes, nenhum projeto coletivo de largo espectro dispensa a parceria entre empresa, sociedade e governo.

Intuíra, também, que fazer o Brasil passageiro do cometa da globalização, ainda que assimétrica e insolidária, pressupunha posicionar suas empresas no exterior, e ocupar nichos para competir mundo afora e assim levar a nossa mensagem aos quatro sóis.

A percepção que hoje se tem do Brasil é quantitativamente maior e sobretudo qualitativamente superior à de trinta anos atrás, mormente no plano cultural, onde se revelam a criatividade e o talento de uma nação multiétnica, diversa na sua unidade e rica na multiplicidade de suas manifestações artísticas. Isso tanto é mais importante por entendermos que os valores se alojam no território da cultura e embora sejam permanentes não dispensam contínuo aggiornamento.

Participantes da virada de um milênio – e as datas inaugurais prestam-se a reflexões e até bizarros exercícios de futurologia –, experimentamos nos pródromos do século XXI o desconforto de uma grande aceleração histórica, a gerar interposição entre passado, presente e futuro.

Dr. Roberto Marinho não ficou com os olhos fixos no presente. Com as retinas do humanista anteviu a necessidade de colaborar na preservação da nossa memória, especialmente “daquele passado que fica do que passou”, como dizia Tristão de Athayde. De igual modo, usou o periscópio para, em mar revolto, enxergar o futuro.

Devo também registrar o seu engajamento no intercâmbio com todos os países da América Meridional, que se espera venha a institucionalizar-se através de uma comunidade sul-americana de nações.

Em obra autobiográfica, De Gaulle tece considerações a respeito de uma “certa idéia da França” que constituíra a razão de ser de sua vida. Transladando, o mesmo se poderia aplicar a Roberto Marinho. Uma certa idéia do Brasil também o afligia. A pátria, com suas virtudes e vicissitudes, era tema recorrente em seus pronunciamentos e conversas. Não seria exagero admitir ter consumido grande parte do tempo nessas inquietações, o que afiança sua sensibilidade para a política, entendida como caminho para converter os sonhos possíveis em realidades tangíveis.

Otto Lara Resende, vide O Príncipe e o Sabiá, conta que Guimarães Rosa sugeria aos amigos: “não faça biscoitos, faça pirâmides”.

Preconizava o mestre de Grande Sertão e Veredas que o escritor devia concentrar-se, condensar-se, viver monacalmente para a sua grande obra, preparar-se longamente para ela e pôr-se ao trabalho sem hesitação ou fadiga. Roberto Marinho foi em toda sua existência um obstinado construtor de pirâmides.

Talento de empreendedor, perseverante e indene ao medo, consciente da imprescindibilidade de atingir metas colimadas, como afirmou Ortega y Gasset ao desenhar os traços biográficos de Mirabeau, “parecia saber-se dotado de alicerces subterrâneos, de invisíveis raízes que sustentam o gigantesco organismo de um grande político”.

Prova-o haver levado ao ar a TV Globo aos 61 anos, já na denominada terceira idade, tendo para esse fim hipotecado todos os seus bens, incluindo aí a própria casa do Cosme Velho.

Criou a Fundação Roberto Marinho aos 78 anos e até então – pasmai! – participou de concursos hípicos, deles só se afastando após uma queda da qual lhe resultaram costelas quebradas.

Aos 87 anos, casou-se com D. Lily, a quem tão apaixonadamente amou.

No mesmo ano, depois de incorporar emissoras de rádio em todo o País, criou, iniciativa sem precedentes, a CBN (Central Brasileira de Notícias). Aos 90 anos inaugurou o Projac (Central Globo de Produção de Televisão) e aos 93, começou a construir o maior parque gráfico da América Latina, concluído em 1999.

Como mais uma demonstração de sua vitalidade e flama – permiti-me aditar breve testemunho: ao completar 90 anos, foi Roberto Marinho homenageado por amigos em jantar oferecido por D. Lily, filhos, noras e netos. O encontro se prolongou até alta madrugada. Ao saber que pretendia participar dia seguinte do lançamento de livro de Vargas Llosa, em São Paulo, ofereceu-me uma carona, em seu avião. No retorno ao Rio de Janeiro, próximo da meia-noite, após haver ficado obviamente insone o dia anterior pelos festejos do aniversário, convidou-me a ir à redação do O Globo.

Entrou pela oficina, não surpreendendo seus funcionários, o que pareceu senão uma rotina, ao menos algo freqüente, e entregou-me o exemplar da edição dominical que circularia horas depois. Restou-me, também a Anna Maria que acompanhava D. Lily, a convicção de que sua nonagenária juventude subsistia na permanente capacidade de haurir do dever o prazer e de, após um dia de labor, regressar a casa confortado por haver oferecido sua cotidiana porção de trabalho para melhorar o País.

Homem público não por opção, mas por sentimento de brasilidade, não sei se Roberto Marinho desperta mais admiração que simpatia. Porém ninguém recusa identificá-lo como uma celebridade nacional, cujos dedos colocados construtivamente nos aros da história, desataram novos paradigmas e alargaram as fronteiras do processo de desenvolvimento sócio-político, econômico e cultural do País.

Senhor Presidente,

A Roberto Marinho se pode aplicar a frase de Terêncio: “nada do que é humano me é estranho”. (homo sum, humani niihil a me alienum puto).

Gostava de ler, ir ao cinema, teatro e ópera. Em entrevista a José Mário Pereira considerou que “a literatura é o retrato de um povo, de uma nação”. Machado de Assis, dizia ele, tanto no romance, quanto na crônica, documenta a história do Brasil e do Rio de Janeiro. Lembrou que sua geração fora educada sob o signo da literatura francesa – Balzac, Anatole France, Flaubert. Apreciava Dickens, de modo particular As Aventuras do Sr. Pickwick, livro para ele “cheio de lances pitorescos e divertidos”, o que confirma possuir o romancista inglês, segundo seus biógrafos, poderes de hipnotizar leitores e ouvintes.

Deixou, além de rica biblioteca, mais de 600 telas, cuja coleção iniciou, ainda solteiro, constituída basicamente de artistas plásticos nacionais, inclusive do amigo Portinari, de quem freqüentava o ateliê. “Gosto da Arte da Renascença, mas também admiro imensamente os modernos... Vejo muita criatividade na pintura brasileira de hoje”, afirmou.

Em depoimento no projeto Memória, da TV Globo, falou de suas preferências, especialmente na música erudita, e revelou satisfação de haver assistido a muitos concertos, mencionando óperas de Verdi, Rossini e Puccini, entre outras.

Esportista, lutou boxe na juventude e praticou, por quase toda a vida, o hipismo, além de participar de regatas, uma delas com Nelson Rodrigues, afora caça e mergulho submarinos.

Talássico, ensinou: “foi o mar que me deu uma das ricas experiências de vida: a de saber enfrentar os desafios com a firmeza dos fortes e a serenidade dos sábios”, do que se deduz comportar-se de acordo com a parêmia latina: “fortiter in re, suaviter in modo” – firme nos objetivos, e suave no trato.

Exerceu, por essas razões, um papel mais saliente na vida nacional do que muitos próceres políticos e líderes da comunidade.

Otimista, exalava confiança e ao seu nome se associava a certeza do sucesso. Alias, “condenado ao êxito” era o título que escolhera para sua biografia, que não chegou a escrever. Dr. Roberto, portanto, se identificava plenamente com a alma nacional: o nosso povo, apesar de tantos padecimentos que o estigmatizam, tem como traço positivo de seu caráter, algo singular no mundo: não se deixar dominar pelo sentimento de revolta ou abater-se pelo desânimo; não lhe falta humor, irreverente nunca grosseiro, e jamais destila o fel do pessimismo. Por conseguinte, seu nome não sairá da consciência coletiva de nossa gente, nem será encoberto pelas névoas do esquecimento.

“A morte – sentenciou Rui Barbosa – não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima”.

O sentimento que se tem, após sua morte, é o de que, quanto mais longe do seu desaparecimento, mais cresce sua exuberante figura, ornada pela sua obra.

De Roberto Marinho se pode afirmar, repetindo Carlos Drummond de Andrade, in Rosa do Povo (Resíduo):
“De tudo ficou um pouco
...
Ficou um pouco de luz”.

Luz para fazer memória de sua vida e, ao mesmo tempo, sinalizar em fulgurante rota a continuidade de sua obra.

A seus filhos – Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto –, que assumiram a missão, a um só tempo árdua e estimulante, sei que não faltará a nabuquiana “provisão de sol interior” para prosseguirem sua obra, sem pressa nem descanso, no pacto que tornaram público, em editorial em O Globo, dia seguinte a sua morte:
“...com ele aprendemos a lição mais importante: a obra de Roberto Marinho partiu de um ideal dele, mas só pôde ser concretizada porque foi o resultado de uma aliança entre jornalistas, artistas, escritores, profissionais da cultura e o povo brasileiro. Não somente preservar, mas ampliar essa obra é o nosso compromisso. E ela será ampliada, não apenas porque este é o nosso desejo, mas porque pretendemos manter intacta esta aliança que a originou. Esta é a nossa intenção, esta é a nossa determinação, este é o nosso compromisso”.

Esta Casa pode gloriar-se, portanto, de haver admitido Roberto Marinho como um de seus preclaros confrades e, de modo particular, me vanglorio de sucedê-lo.

Senhor Presidente,

A Academia Brasileira de Letras, templo de preservação do idioma, promove o constante alevantamento da literatura nacional, zela pela memória de nossa cultura e, se conosco estivesse, nestes tempos de globalização, Machado de Assis estaria agora regando, na última flor do Lácio, as raízes da nossa latinidade.

Getúlio Vargas, ao ser admitido nesta Instituição, considerou-a “uma espécie de judicatura mental do País, preparando uma atmosfera de interesse e de respeito pelas criações intelectuais , estimulando as vocações e facilitando-lhes o acesso às fontes de revigoramento e renovação espiritual”.

Aqui também já se rememorou, em outra oportunidade, haver Pellison, o primeiro historiador a ter assento na Academia Francesa, que nos serviu de inspiração, comparado seus membros a “operários a trabalharem na exaltação da França”.

Não tem sido outro o múnus deste Sodalício.

Tradição e criação – características de um povo –, esta a renovar aquela, marcam esta Academia, e aqui estou, consciente de que sem a participação de seus membros nada se construiria, mas também nada pervadiria o tempo sem a força da Instituição.

Mercê do idealismo de seus sucessivos dirigentes e integrantes, a ABL desenvolve inúmeras ações, algumas pouco conhecidas conquanto de enorme significação, na difusão do saber literário do País. Promove também o intercâmbio com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e povos de outras falas e culturas.

Agradeço haverdes designado o Acadêmico e Ministro Marcos Vilaça, amizade dos longes da minha infância abrasada com o selo da conterrania, e a quem tanto admiro, para acolher-me nesta noite marcada pelo sotaque pernambucano.

Manifesto meu reconhecimento também aos conterrâneos que nesta Casa nos precederam, cujas memórias vivas agora recordo no patrono Maciel Monteiro (médico, jornalista, diplomata, político, orador e poeta) e nos fundadores Joaquim Nabuco (político, diplomata, orador, poeta e memorialista), Oliveira Lima (historiador, escritor e diplomata), Medeiros e Albuquerque (jornalista, professor, político, contista, poeta, orador, romancista, teatrólogo, ensaísta e memorialista) e Silva Ramos (professor, filólogo e poeta), seguidos pelos acadêmicos Martins Júnior (jornalista, advogado, jurista, político, professor e poeta), Sousa Bandeira (advogado, professor, ensaísta e diplomata), Artur Orlando (advogado, jornalista, político, jurista, crítico literário e ensaísta), Dantas Barreto (historiador, marechal-de-exército, jornalista, romancista e teatrólogo), Antônio Austregésilo (médico, professor e ensaísta), Adelmar Tavares (advogado, professor, jurista, magistrado e poeta), Olegário Mariano (poeta, político e diplomata), Celso Vieira (biógrafo, ensaísta e historiador), Múcio Leão (jornalista, poeta, contista, crítico, romancista, ensaísta e orador), Barbosa Lima Sobrinho (advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor e político), Manuel Bandeira (professor, poeta, cronista, crítico e historiador literário), Antônio Carneiro Leão (educador, professor, administrador e ensaísta), Álvaro Lins (professor, jornalista, crítico literário, ensaísta e diplomata), João Cabral de Melo Neto (poeta, escritor e diplomata), Mauro Mota (jornalista, professor, poeta, cronista, ensaísta e memorialista), que ao longo da história contribuíram, como hoje o fazem Marcos Vilaça (advogado, professor, escritor, ensaísta e Ministro do Tribunal de Contas da União) e Evanildo Cavalcante Bechara (escritor, professor e filólogo), todos no evoluir da história aureolando esta Casa.

Menção especial ao caruaruense Austregésilo de Athayde, jornalista, professor, orador, cronista e Delegado do Brasil à Assembléia Geral das Nações Unidas, realizada na França em 1948, que aprovou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, para a qual colaborou. A ele o reconhecimento pelo longo e sobretudo fecundo exercício na Presidência desta Casa, em que serve de inspiração a seus pósteros.

Senhor Presidente,

A pátria começa no solo onde se nasce. O humano é um animal telúrico e por mais universal que seja a vocação de cada um, é no arrocho do berço que buscamos inspiração para agir e força na adversidade.

Perpassado de emoção – glória que jamais teriam sonhado os mais elevados devaneios de infância –, aqui estou num dos momentos mais fascinantes de minha vida, envergando o fardão, ostentando o colar e empunhando a espada. Mas não sem saudade, saudades muitas. De minha mãe, Carmen Sylvia, sempre presente na memória e no coração, e de quem recebi total afeto e permanente estímulo. Dos idos no velho casarão do Colégio Nóbrega, onde menino comentava as vitórias do meu Santa Cruz, sob os apartes dos torcedores do Náutico e do Esporte; onde os jesuítas inculcaram, juntamente com meus pais, formação intelectual e sólida fé cristã.

Saudades dos tempos dos bancos universitários da tradicional Faculdade de Direito, a Casa de Tobias Barreto, o fundador da Escola do Recife e especialmente da minha turma de 1963, cujo Patrono, o Papa João XXIII, na encíclica Pacem in terris, afirmou: “A paz será uma palavra vazia de sentido se não se fundar na ordem: ordem fundada na verdade, constituída na justiça, alimentada e consumada na caridade, realizada sob os auspícios da liberdade”. Ao lado dos estudos, recordo toda uma geração dos tempos da política estudantil no Diretório Acadêmico, no DCE da Universidade Federal, na UEP e, em menor escala, na UNE.

Depois de breve exercício do magistério, a vida pública, mais pública do que vida, à qual me consagrei integralmente, como a um sacerdócio.

A política sem o desconfiar, o meu endereçamento futuro, era o ar que respirava em casa, haurindo lições probas e lúcidas de meu pai, José do Rego Maciel, das quais ainda venturoso desfruto.

Alegro-me parafrasear Norberto Bobbio: considero-me um homem de sorte. Sorte pela família na qual nasci. Sorte pela família que Anna Maria e eu construímos, mais méritos de minha mulher do que meus. Sorte pelos professores que tive, pelos amigos que tenho e também por ter nascido no Recife, tesouro dos meus sonhos. Sorte por esses anos aos quais chego, limado pelo tempo, mas plenamente motivado para exercitar a conviviabilidade acadêmica.

Por fim aprendi que não se pode – porque não se deve – refugir ao destino.

Fata viam invenient – o destino encontrará seu caminho –, dizia Virgílio em sua Eneida. Não se trata de fatalismo ateu, nem politeísmo, pois esclareceu Santo Agostinho, em De Civitate Dei, que o destino coincide substancialmente com a vontade do próprio Deus.

Espero, finalmente, nesta Casa continuar honrando as tradições de Pernambuco, que irrigou com o sangue de heróis e mártires as virtudes cívicas de nossa gente. Tenho, por isso, orgulho de ser parte desta herança que legamos ao Brasil e a ela tenho buscado ser fiel, pois, para mim, como reza o hino de nosso Estado, Pernambuco é “um sol a brilhar no infinito”.

 
     
     
 

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