CIDADES BRASILEIRAS

 RECIFE DO MEU DESENCONTRO

Recife atordoante,
Recife dos contrastes,
Recife dos recifenses
E Recife dos não recifenses, como eu.

Quarenta anos de vida
Neste solo, neste batente,
Neste desencontro.

Belas avenidas ultra-modernas,
Belas praças ajardinadas,
Belos painéis para a vista
E para o senso artístico de alguns.
E aqui estou eu,
Olhando, sentindo, vivendo.
— Meu Recife antigo, onde estás?
Já não te vejo calmo e humano
Nas fisionomias dos que passam apressados
Para não perder o ponto,
Para atender o cliente com hora marcada,
Para se alçar de uma tribuna
E falar às massas,
Para alcançar a fila dos ônibus.

Ah! Meu Recife, dos meus sonhos de jovem,
Das noites tranqüilas,
Das tardes tranqüilas.
E o Capibaribe manso
Correndo em sua casa...
(Hoje ele corre nas casas
Dos que invadem seu leito).
Oh! Meu Recife dos contrastes...
Dos suntuosos edifícios
E dos mocambos à beira dos canais.
— Quem te pode ver
Sem não sentir um gosto amargo?!
Recife dos camelôs
Agora espremidos em volta do Mercado de São José.
Recife das imponentes Catedrais.
Das pontes majestosas
E das ruas burocratizadas
(Há bancos para se sentar
Em horas de cansaço).

Meu Recife, como te quero ainda...
Mas já não vejo teus horizontes
Nos panoramas fechados dos teus arranha-céus.
Não te encontro mais a paisagem tranqüila
Das tuas ruas cheirando a ternura.

Meu Recife, dos que se foram
E dos que aqui estão.
Olhando-te através dos tempos,
Encontro-te agora vestido de cimento,
Mal-educado,
Psicodélico em tuas cores,
Mas revestido da couraça da saudade,
Onde bebo a realidade
Do meu desencontro.

Meu Recife de hoje,
Meu Recife de ontem.
Meu Recife de sempre
Dormindo acordado
Dentro de mim.

(Poema escrito em 1978)

Dulce A. Siqueira

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