Estátua de Carlos Drummond em Copacabana (Rio), de Leo Santana, com um verso do poema "Mas viveremos"

 

Instrumental (A palavra e o Poeta)

O que sente o poeta quando fala?
E quando cala,
quais verdades esconde?
Sabe ele o que sente
ou inventa nomes para o que percebe,
tal Deus amalgamando as cores
do arco-iris que se forma no além monte?

O poeta chora e sua poesia e' lagrima incerta,
no seu riso, o poema é pura festa,
na sua saudade, a poesia lhe é triste e crua.

O poeta morre  e seu registro se faz bruma,
tesouro iluminado pela lua,
desejo solto, fogo, pedra, rua.

O que esconde o poeta quando escreve?
Quais distâncias não alcança,
o que lhe foge a afiada lança,
o que permanece a fustigar-lhes a face nua?

O poeta pensa
enquanto, em asas, as palavra voam.
No sileêncio, o poeta lhes espera o pouso.

O que ousará delas ouvir?
Que vertentes deverá delas esculpir:
Sim, não, porém,
brisas, mares, haréns?

A palavra é viva
e este segredo lhe é bem dentro
posto que
o poeta é apenas instrumento —
casa, castelo, palafita —
A palavra lhe é a deusa mais bonita,
Ave  majestade que lhe povoa os brios,
delatando seus amores vis
e suas dores infinitas.

Prisioneiro, ele a procura
Vaidosa, ela o espera
Juntos eles se perdem
e contam o mistério que lhes convém
De, sendo dois, serem apenas um
e sendo sóis, não serem ninguém.

O que perde o poeta
quando a palavra não lhe vem?

                           Sandra Lira Rodrigues

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