Da série NINGUÉM É O MESMO, MESMO QUE SE REPITA



Gravura de Richard Hamilton


O mundo não é o que a gente vê, mas o que pensamos estar vendo. A cor azul é a única que não grita. Meu quarto é um estojo de violino. O mundo não é o que a gente vê, mas o que estamos pensando estar vendo. Meu irmão regava o violão toda hora. As cordas entristeceram violetas. Pensamos que sabemos tudo. Quando não sabemos nada, começamos a entender. Repara: um homem perto de morrer parece uma bicicleta abandonada. As abelhas são formigas em dias de carnaval. As formigas são abelhas em dias de chuva. Repara: as uvas são nossos olhos plantados. As parreiras se aproximam porque sentem frio. O pior não acontece, o pior pode ser o início do que não aconteceu. Ao menos, o inferno não precisa ser construído. O mundo não é o que a gente vê, mas o que estamos pensando estar vendo. O mar é como um livro de poemas, deixa páginas em branco. Ficar quieto é ficar triste. Ficar ruidoso é ficar alegre. O mundo não vai acontecer se a gente não chegar a sê-lo. Entre o amanhecer, o entardecer e o anoitecer, o louco não é o mesmo, o pai não é o mesmo, a mãe não é a mesma, a criança não é a mesma. Ninguém é o mesmo, mesmo que se repita. O mundo é bem mais fácil, o que torna tudo difícil. Procuramos complicar para dizer que levamos tempo. Levar tempo não é levar eternidade. Repara: o bicho-de-seda não sabe se vestir. Na cozinha, até os quadros são talheres. O vento vem de cima. Não há muros no verão. O inverno é luto obrigatório. O rio ri sozinho. Uma garrafa vazia é uma boca sem dentes. O mundo é bem menor do que um chapéu, mas maior do que uma cabeça. O pescoço feminino é como derramar um jarro, descer os degraus da água. Uma esperança é melhor do que uma mentira. Esperar alguém é melhor do que mentir que se espera. O bosque é violeta de noite. Os pássaros são relâmpagos que cansaram. O mundo não é o que a gente vê, mas o que pensamos estar vendo. A gente cresce para se separar, a gente deveria crescer para nos alcançar.

Fabrício Carpinejar

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