VOLTAR PARA CASA

Quando me perguntam qual é a parte do dia que eu mais gosto, não tenho dúvida alguma da resposta: Voltar para casa !

Minha jornada tem três períodos e preciso trocar os "chips" entre eles. No entanto, a memória "ROM" guarda o caminho de casa, como um renovado instinto primordial, sem necessidade de cópia de segurança, posto que impresso indelevelmente no GPS do espírito.

Minha cabeça pode estar em vários lugares, mas meu coração está lá, na forma de minha mulher e de meu filho, mesmo que ele esteja em sua segunda casa: a "república" da universidade onde estuda.

É assim há mais de vinte anos e não consigo imaginar de outra forma, pois é a rotina mais prazerosa que tenho!

E não é um prazer consumista, materialista ou ostentador, para os outros verem ou invejarem. É espiritual, pois quando estou longe de quem amo é como se uma parte de mim — a melhor, imprescindível! — fosse emprestada com 3V (vai e volta, voando!). Uma parte imantada, cujo invisível — às vezes bem visível — magnetismo quer de volta ao "todo", atração tanto maior quanto a distância ou o tempo que os separam.

Minha casa é meu norte! E por esse sentimento de forma tão clara e natural, às vezes me pergunto: O quê leva pessoas a não quererem voltar para casa? O quê as faz se sentirem melhor num balcão ou mesa de bar, numa "tribo" ou nas ruas?

O que as faz preferir que essas sejam suas casas, ou, melhor, seus refúgios?

Porquê se embebedam ou drogam antes de voltar? Por qual motivo preferem partir, sem rumo, sujeitas a incertezas e males, até aceitando-os de bom grado, até o limiar da morte em vida ou da própria morte, no limite?

Essas são perguntas que não devem ser dirigidas apenas aos que partem, mas também — em certos casos, principalmente — aos que ficam.

Será por vergonha, violência física ou psicológica, cobranças excessivas, ambientes depressivos ou falsas aparências? Será pela lógica do: "Casa que não tem pão, todos gritam e ninguém tem razão!", ou do: "Quando a fome entra pela porta, o amor sai pela janela.", ou, ainda, do: "Manda quem pode. Obedece quem tem juízo!"?

O amor, de fato, é o único "magnetismo" capaz de garantir voltas queridas! Mas não o amor doentio ou unilateral, que prende sem unir; que absorve e exaure, por egoísmo, ou vence pelo cansaço. Falo de um sentimento que sabe manter laços, mesmo à distância; que sabe deixar partir, com um sorriso, e esperar voltar, com incomensurável desejo.

O quê leva pessoas a não quererem voltar para casa? A se entregarem a todo tipo de alienação? A usarem e deixar abusarem de seus corpos e mentes? A atentar e chocar com estereótipos dolorosos e danosos? A buscar consolo onde ele não está, fora de si, de múltiplas formas; acreditando em liberdades que acabam acorrentando ainda mais?

Os motivos para voltar não estão nas vontades feitas, nem nas promessas devidas, nem no perdão incondicional. Tampouco estão nas aparências do poder econômico ou do discurso bonito, mas sem alma.

Um verdadeiro lar não nos prende, mas faz com que a ele sempre desejemos voltar. Ele não fica, estático, num único lugar. Está sempre com a gente! Como quem amamos, aliás!

Uma casa só é nossa, material ou não, quando algo que amamos vive dentro dela, e quando temos chaves para abrir todas as suas portas e janelas. É quando queremos estar nelas, compartilhando coisas simples e planos com quem queremos ao nosso lado, sabendo que esse sentimento é recíproco.

Voltar para casa é o desejo de continuar a construí-la e reconstruí-la num projeto conjunto, de vida!

O quê leva pessoas, então, a não quererem voltar para casa?

As dúvidas, mais do que as respostas, talvez ajudem a entender os motivos; reconhecer os erros de quem foi e de quem ficou; curar feridas e, por fim — ou, melhor, reinício —, ensinar o caminho de volta.

Adilson Luiz Gonçalves

« Voltar