OUTDOOR...

Distraído, quase trombo com alguém, na calçada.
Em exercício de reconhecimento espacial do ambiente, piscar de olhos, deparo-me com um homem, sessenta anos na aparência talvez, absorto, boquiaberto, ao mirar sem palavras o outdoor bem diante de nós.
A curiosidade é companheira que não pede licença, e lá leva meu olhar, como homem biônico, ao detectar com toda atenção de espião o que se apresenta nessa placa ao ar livre. É a figura da atriz global, Suzana Vieira, em sorriso convidativo — sua marca registrada —, em corpo inteiro. Claro, vendia algum anúncio, mas seu sorriso é estrada que merece toda atenção e que não me deixa ler os letreiros.
Deixo os dois para trás, sigo minha caminhada, olho mais uma vez e o homem continua estático, sabe-se lá o que imagina.
Sigo distraído novamente.
Ao atravessar a rua — estrelas dos céus!, brado —, quem eu vejo? Não acredito. Regulo minhas pupilas, procuro nitidez. Devo estar sonhando. Nada mais, nada menos, que a Suzana Vieira, que sorri ao passar por mim. E eu, ali, sem entender nada, mais um boquiaberto.
Será que estão filmando algo sobre o outdoor? — penso, rapidamente.
Em golpe de sorte, nem acredito, ela se volta e diz algo. Não entendo. Pacientemente ela repete: — Nunca viu uma estrela de perto, não?
Embarco nesse glamour que está ao menos em minha cabeça e disparo:
— Assim com esse brilho, não. Deixou-me ofuscado. Agora preciso que você dê-me sua mão para eu atravessar a rua.
Ela ri gostosamente.
E não é que ela me atende? Pega-me nas mãos. Será que a diferença de idade nos atrai? Logo que isso acontece toca o seu celular. Uma voz masculina, tremendamente apaixonada, no cio, começa a declarar as mais íntimas intenções. Ela, a Suzana, fica em transe, hipnótica. Junta seu corpo ao meu enquanto ouve o comando da  voz imperativa.
— Quero que feche os olhos e entreabra seus lábios gostosos e ponha-os juntos aos meus...
Ela o atende incondicional e põe seus lábios nos meus.
E eu ficando sem fôlego.
E assim, a cada comando, ela o atende em mim. E eu, excitado cada vez mais, abraçado, quero dizer, colado em sua cintura, junto aos nossos calores, também com meus ouvidos aguçados, próximos ao celular generoso.
E a voz insiste:
— Eu sei que seus seios estão estufados, suados... posso sentir meus dedos bem devagar pelo seu decote; sinta o escorregar ousado de  minhas mãos curiosas para ver o que descobrem...
Quando dou por mim, vejo os seios dela de fato estufados, escorrendo gotículas de desejos, e os meus dedos sumindo sob o decote, contornando seus mamilos, ora suave, ora rudemente. E ela aos suspiros...
Nossa, agora sou eu quem está atendendo essa voz maluca?
E cada vez mais, ficávamos querendo saber qual é o próximo comando dessa voz. Será um vouyer descarado, esse filho da boa mãe?
Nem me dou conta que estamos num canto da calçada, via pública, sujeitos aos olhares públicos. Mas, o que importa nessas horas?
Nossas saliências e vãos combinam-se sem cerimônias, com algum ritmo lento, com forte pressão, para não chamar a atenção, como se isso fosse possível.
Ao mordiscar seu pescoço com a jugular pedindo devassidão, e nossas mãos se encontrando no baixo equador, em movimentos comuns desses momentos, beirando irracionalidade, levo tremendo susto. Estou enroscado em várias ondas, como uma presa fácil em teia de aranha voraz. Começo a me desvencilhar e puxar esses cordões e claramente os vejo ligados à mente do homem há pouco conhecido. Acabo por gargalhar. Eu estava o tempo todo, enroscado nas ondas mentais do homem boquiaberto, diante do outdoor, em seus delírios secretos, em companhia da Suzana Vieira, imaginária.
E eu ali, caído de tanto rir, preso nessa armadilha, acordo com cara de idiota.

Nilton Bustamante

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