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OS PECADOS DE TODOS NÓS

Estive numa região catalã palco da inquisição medieval. Lá, como em tantos outros lugares do mundo (leram a esquecida e muito bem escrita "O Santo Inquérito", de Dias Gomes?), queimaram milhares de supostas bruxas. Na Andaluzia, observando monumentos e placas comemorativas, certifico-me como os reis católicos fizeram de tudo para aniquilar a cultura árabe, muito mais desenvolvida e sábia na época do que a ocidental. A catedral de San Matheo, em Tarifa, por exemplo, foi construída em cima das ruínas de uma mesquita moura. Mas tudo indica que o poder do Vaticano está findando, possivelmente nem chegue ao próximo século. O conservador papa João Paulo II, mesmo mais morto do que vivo, continua entre outras coisas, impondo o celibato para padres e combatendo o divórcio, preservativos, aborto, sacerdócio feminino e relações homossexuais, o que afasta uma infinidade de fiéis. Novas religiões e seitas surgem inesperadamente, confundindo uma humanidade desorientada. É a velha história do se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Os nossos pecados nem sei mais se podem ser denominados assim, afinal a fronteira que separa o bem do mal é cada vez mais nebulosa. O Vaticano, de São Pedro até hoje, 20 séculos depois, há contabilizado 264 pontífices. Entre eles houve, como é natural, criaturas generosas, cultas, humildes, larápias, criminosas e loucas furiosas. São o espelho dos filhos de Deus. Há, no entanto, uma lenda — segundo a igreja católica, e rebatida por alguns historiadores que apostam na veracidade dela - fascinante: Joana, a mulher papa. Conta Martin Polonus, um monge do século XIII, que ela nasceu quatro séculos antes em Maguncia, ávida pelo aprendizado; travestiu-se e viajou a Atenas, tornando-se uma celebridade pelos seus conhecimentos. Sempre disfarçada de homem, foi a Roma no ano 855, elegendo-se papa por unanimidade com o nome de João. Dizem que reinou durante dois anos, cinco meses e quatro dias, e que o fez bem e com prudência. Porém ficou grávida de um monge e durante uma solene procissão, deu a luz. O espetáculo enfureceu os cristãos, e a papisa, atada pelos pés no rabo de um cavalo, morreu arrastada pelas ruas de Roma. No lugar de sua infâmia, ergueram a estátua de uma mulher com trajes papais e um bebê nos braços, tombada pelo papa Pio V (1566-1572). O Vaticano insiste em negar o acontecimento e esse período, como chefe espiritual supremo, está ocupado por Benedito III, de quem nunca se ouviu falar. A estátua existiu e a viu, entre outros, Martin Lutero em sua viagem a Roma em 1503. O certo é que a igreja católica esconde muitas histórias, documentos e livros fundamentais (lembram de "O Nome da Rosa", de Umberto Eco?) para uma compreensão maior do passado da humanidade. São Malaquias, um monge  irlandês do século XII, depois de uma de suas inúmeras e herméticas visões, profetizou que o catolicismo só teria, a partir da época dele, mais 112 papas. Faltam somente dois. Oremos para que seja verdade, ou pelo menos para que a popular igreja romana assuma publicamente os seus pecados, renove-se e siga honestamente a cartilha verdadeiramente santa do inesquecível Homem de Nazaré.

   Antonio Júnior
(escrito em Andaluzia/Espanha, junho de 2004)

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