![]() |
![]() |
Falam coisas horríveis sobre mim por aí. Qualquer criaturinha atraiçoada da superfície da terra usa meu nome em vão. Chega! Vou lhes contar toda a verdade. Por quase dois mil anos fui difamado e injuriado. Malditos Galileus! Esses rudes "colonizadores de fronteira" jamais poderiam aceitar a superioridade do povo da Judéia. Os outros onze me desprezavam, mas Ele não. Foi por minha inteligência e fé que ganhei o direito de guardar as parcas finanças do grupo. Filhinhos da mamãe! Não sabiam de onde vinham os dinheiros. Tiago, o filho de Zebedeu, era um deles. Comprava ungüento a torto para jogar sobre os pés daquela gente fedida. Não agüentava o cheiro de peixe e piche. Chamava-me de sovina, vejam só. Mais uma difamação. Não deveríamos nós adquirir e distribuir comida entre os pobres, já que toda a vez que Jesus multiplicava um pão as pessoas tinham receio de comer algo geneticamente modificado? Todo aquele papo de esse é meu corpo e meu sangue foi um erro estratégico. Canibalismo era um pecado muito grande entre os circuncidados. Meu problema foi terem deixado que somente aqueles quatro assumissem a responsabilidade de contar toda a história. Inventaram o tal beijo e o suicídio. Propagaram profecias desagradáveis a respeito de algo que eu iria fazer. Todos aqueles que me defenderam, anos depois, foram queimados nas fogueiras da Inquisição. Mas vocês que hoje se dizem cristãos também têm culpa nisso. Sua fé alienada calou a razão. Digam-me: se eu era assim tão ruim por que fui escolhido por Ele, que era perfeito? Por que precisaria entregar um cara que vivia por toda a Palestina pregando em sinagogas e curando enfermos diante de milhares de testemunhas? Eu também curei enfermos e divulguei a Palavra. Também expulsei demônios. Fui o discípulo mais fiel e devotado. E por trinta moedas? Tudo bem que não tínhamos nem para a ceia, mas delatar um Rei custaria pelo menos 100. Não que eu me arrependa; só que hoje tenho uma opinião critica a respeito de Sua filiação divina. Não era Ele para ser o Deus feito homem? Então, como homem, por que não teria pecados? Como homem, por que não comeria Madalena ou cobriria Pedro de porrada ao perceber que ele iria lhe negar três vezes? Só no meu? Todos estes anos vivendo afastado do meu ego, suspenso por ganchos no Absoluto Imanifestado, me tornaram menos ascético. Passei a ver essa tal união hipostática com outros olhos. O inferno faz a gente pensar. Se o Verbo se fez carne, se pôde se rebaixar a tal, por que eu, que era carne, não poderia me rebaixar a traidor? O humor de Deus sempre foi estranho, vejam o que ele fez com Abraão e o filho. Eu confesso que quando os homens de Caifás me perguntaram, disse mesmo onde Jesus estava no Getsêmani. Apontei a direção. Não fiz isso por grana e sim para cumprir meu destino na história. Não fiz isso por falta de fé e sim por excesso dela. Meu amor por Deus me bastava; fez deixar de lado minha própria honra para deflagrar a divindade Dele e a rebelião contra o jugo de Roma. Jesus não era o filho de Deus; era o próprio Deus e eu, seu filho verdadeiro. Sou o terceiro elemento da Santíssima Trindade. O ser falho, capaz de total abnegação em nome da Verdade. E a Verdade, meus devedores, é que fui condenado à forca, sem julgamento, por uma dúzia de fanáticos gregos. Acreditaram em Tomé, que desta vez nada precisou ver. Fui covardemente assassinado para que vocês possam hoje se regozijar por Ele. E o que quero? Apenas que em lugar da cruz, passem a portar orgulhosamente no pescoço minha figura pendurada em uma corda. Não acho que é pedir muito.
Marcelo Niederauer