© Gifs exclusivos de Urhacy Faustino

Sexta-feira Santa

          Deixe de histórias, menino. Venha beijar o santo e pronto.
          – Não vou. Tenho medo dele.
          – Beije ou apanha quando chegar em casa. Aproveito a cinta e quitamos aquelas dívidas antigas que nós temos, tais como responder pra professora, matar passarinhos, conversar durante as aulas...
          As surras do meu pai eram temidas. Apavorado, aproximava-me, hesitante, do caixão, onde o Crucificado dormia o seu longo sono, todo marcado por pancadas, no tronco, membros, com equimoses e ferimentos sangrando nos braços, joelhos, e principalmente na testa, onde estava a coroa de espinhos, bem como nas marcas dos cravos, visíveis no dorso das mãos e dos pés. Era um quadro desumano e cruel. Eu tinha dez anos, morávamos em uma pequena cidade do interior paulista, Morungaba, e essa tradição, de beijar o Jesus morto, nas noites de Sexta-feira Santa, eram imposições seguidas à risca por toda a população, logo após o final da procissão que percorre algumas ruas do centro. As crianças, como eu, embora não quisessem, eram obrigadas a depositar nas vestes ou no próprio ser venerado, o nosso ósculo medroso. À noite, evidentemente, acordávamos suados, lembrando o sofrimento daquele símbolo inerte dentro do esquife.
          Até hoje um desses sonhos me persegue: entro na minúscula igreja, deserta àquela hora da tarde, e caminho solitário e temeroso em direção ao altar-mor; no meio da nave paro e olho à esquerda: em um nicho, na parede lateral, quase ao rés do chão, está o perfil deitado, com uma pequena lâmpada vermelha, mal iluminando o corpo. Nesse instante enquanto o ruído do silêncio machuca os ouvidos, a porta principal, enorme, às minhas costas, fecha-se com um estrondo que ecoa entre os santos, imóveis, e que não tiravam os olhos de mim. Pronto. Aqui estou sozinho e mudo olhando a figura que dorme o sono dos ferimentos cruéis, tremendo de pavor. Nesse instante acordo gritando, suado, nervoso, o coração disparado. Minha mãe corre, abraça-me, tenta explicar que foi um pesadelo mas o sangue disparando nas veias do desespero é surpreendente. Dona Virgínia traz um copo de água com açúcar e leva-me para dormir em sua cama, no meio, entre ela e meu pai, que resmunga:
          – Esse cagão sonhou com o Senhor Morto outra vez, é?
          Hoje, sexagenário, com duas filhas e dois netos, resolvi exorcizar meu passado de angústia, não vivenciar mais esses horrores tão bizarros. Fui à pequena Morungaba, entrei resoluto, com a coragem da velhice, para encarar aquela representação massacrada pela estupidez de vinte séculos. O perigo quando enfrentado perde parte de sua força.
          Parei, como sempre fazia durante a minha meninice, entre os corredores dos bancos de madeira, avoengos, sabendo que desta vez não haveria o barulho lá atrás quando as folhas de madeira batem fortes entre si.. Consciente caminhei em direção à charola dos meus receios com a vontade férrea de livrar-me de vez daquele sofrimento. Meu desejo era ajoelhar-me ao lado da imagem, fitá-la com o cansaço do passado, e dizer-lhe:
          – Senhor, já não temo mais fitar os seus olhos (agora me lembro que, embora morto, eles continuavam abertos e brilhantes) e confessar-lhe os meus temores. – Assim pensando virei-me para a esquerda – já feliz por sepultar finalmente essa tragédia que me perturba há tanto tempo – mas...
          – O que houve? Onde está a cavidade com o cadáver? Não há sequer sinal da existência dela. E o meu exorcismo?
          Procurei os meus primos que ainda moram lá e eles me explicaram que a imagem, que tanto mal físico e mental me causa, está na pequena torre, em um quartinho, de onde é retirada apenas nas noites de Sexta-Feira Santa, para a procissão.
          – Quem tem a chave desse quarto? Vou lá. Não quero perder minha viagem. Preciso saldar de vez essa dívida.
          – Só o padre Augusto tem as chaves.
          – Muito bem. E onde o encontro?
          – Está pescando em Mato Grosso com o pessoal da paróquia.
          – E quanto tempo demora essa abençoada pescaria?
          – Geralmente de quinze a vinte dias..
          Tomei café com bolinhos de chuva (que adoro) com eles, e retornei cabisbaixo para Jundiaí. E se eu sonhar de novo esta noite?, pensei. Infelizmente acertei: lá estava eu novamente dentro do diminuto templo, subindo as escadas, ao lado do altar, à procura daquele cômodo que ignorava existir porque jamais estivera ali. Os degraus antigos, de madeira, rangiam de uma maneira estranha e perturbadora, lembrando-me aqueles filmes antigos de terror. Felizmente não havia teias de aranha. Por fim cheguei, apanhei a maçaneta, girei-a devagarzinho e entrei. Diante da escuridão procurei depressa o interruptor e acendi a luz... vi, em seguida, o caixão aberto, sobre dois cavaletes de madeira, junto à parede da esquerda (sempre à esquerda) e, deitado no seu interior, fixando-me com seus olhos brilhantes, Jesus ergueu a cabeça e emitiu uma gargalhada gozadora, forte, sinistra, horripilante, que ribombou por entre os espaços vazios do santuário...
          Desta vez foi minha mulher quem acordou com o meu grito de terror.

 Bino Júnior

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