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UMA NOVA VERSÃO DA PAIXÃO DE CRISTO
Em Santa Luzia do Norte, município um pouco além da periferia de Maceió, todo ano há encenação da Paixão de Cristo pelas ruas da cidade, com grande participação popular. No ano passado os organizadores acharam por bem substituir o ator que fazia o papel principal. Todo mundo sabe que Cristo morreu com trinta e três anos, e o ator já passava dos cinqüenta. Seus cabelos grisalhos estavam em desalinho com os trilhos da História e não convenciam mais ninguém.
Concluído o teste cênico de vários candidatos amadores, escolheram um ator novo, malhado e cheio de ginga. Apesar de não lembrar um mínimo o personagem central, ao menos tinha uma aparência Global, arrancaria suspiro das mulheres. O ator antigo não ficou sem função. Em reconhecimento aos longos anos de serviço prestado à companhia teatral, arranjaram-lhe o papel do soldado que chicoteia Cristo no caminho do Calvário.
Depois do julgamento, cujo resultado é conhecido de todos, Jota Cristo foi coroado com sua coroa de espinho, pegou sua cruz e saiu trôpego, no caminho do seu destino, seguido por uma multidão de figurantes e espectadores. Algumas pessoas, mais sensíveis, choravam às cântaras com o realismo do espetáculo e se auto-flagelavam, dando açoitadas nas costas de galhos de cansanção, aquela planta que arde mais do que urtiga. O soldado chicoteador, com raiva do ator que havia tomado o seu lugar, deu a primeira chicotada imprimindo rancor e ódio ao látego. Jota Cristo acusou o golpe e pediu ao soldado para bater devagar. Aquilo era uma encenação. O soldado fez ouvido de mercador e baixou o sarrafo, em três chicotadas seguidas, rasgando a roupa e tirando sangue das costas do condenado. Jota Cristo jogou a cruz de lado, deu um murro no soldado, arrebatou o chicote e passou a surrá-lo com raiva e fúria. O povo, tomado pela forte emoção, pensou tratar-se de um novo enredo para a Paixão, aplaudiu entusiasticamente a reação de Cristo, elogiando sua atitude corajosa, de macho. Naquela terra de homens valentes, ninguém aprovava seu jeito cordeirinho de aceitar morrer resignadamente, ainda mais sendo filho de quem era. Bastava dizer um “abracadabra” para a terra engolir todos os seus inimigos.
E assim, devido a um realismo fantástico, foi reescrita uma nova versão do Evangelho, apresentando um novo final: em vez de ser crucificado, Jota Cristo foi recolhido ao xilindró por soldados à paisana, que não faziam parte do elenco.
O povo, em vigília solidária, varou a noite na praça, exigindo a liberdade do ator. Sem a crucificação, não haveria Sábado de Aleluia e a respectiva queima de judas. E as crianças perderiam o chocolate do Domingo de Páscoa.
Ronaldo Torres