Coluna de 28/4
(próxima coluna: 14/5)

A companhia teatral fundada em 1949 pelo dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht no lado leste (ex-comunista) de Berlim já deu muito o que falar e ainda hoje dá muito boas criticas e páginas e mais páginas de jornais com o trabalho realizado e continuado pela nova geração ali presente. Seu prédio foi construído em 1880, porém a explosão da fama – não somente em Berlim, mas também em todo o leste europeu - ocorreu nos anos 1950, sob a influencia e direção do dramaturgo, um dos expoentes maiores do teatro do seculo XX.

Originalmente, o Berliner Ensemble foi criado relacionado ao tradicional “Deutsches Theater ”, onde Brecht dirigiu a produção de seu texto “Mutter Courage und ihre Kinder” (Mãe coragem e suas crianças), em janeiro de 1949. Montagem esta que revolucionou na ocasião todos os paradigmas preconcebidos do que deveria ser uma boa encenação teatral. Eles ousaram em criar um teatro alternativo, experimental e inovador, sem medo e totalmente baseado em conceitos modernos de encenação e interação com o espectador. Um trabalho completamente “ avant-gard” (vanguarda). Originalmente designada como uma companhia de espetáculos para tournées, mais tarde ela veio solidificar-se com um trabalho ja considerado então, de uma companhia teatral estável de repertório.

Assim que Hitler subiu ao poder na Alemanha em 1933, Bertolt Brecht, um dramaturgo e poeta marxista, já famoso na ocasião por seu texto “ Threepenny Opera” (A Ópera dos três centavos”, escrita em 1928), imediatamente tomou um avião e voou para a Dinamarca. Seus trabalhos foram instantaneamente banidos pelos nazistas e poucas semanas depois de seu vôo, seus livros foram queimados por ordem governamental. Em 1939, quando a Segunda Guerra Mundial começou, ele escreveu este texto da “Mãe Coragem e suas crianças”, porém sua montagem se deu apenas dez anos apos seu retorno ao país de origem. Assim, nasceu o grupo teatral de Berlim, que segue ate hoje com suas encenações no mesmo prédio, o “Ensemble Theatre”, também conhecido em alemão por “Theater Am Schiffbauerdamm”.

Berlim ainda hoje continua reconhecida como um dos maiores centros culturais do mundo para a arte dramática, atuando em meio a outras grandes metrópoles e/ou capitais européias com um papel de influencia intelectual extremamente forte e muitas vezes até mesmo dominante. A cidade traz em si uma rica história teatral. Bertolt Brecht, depois de abandonar Hollywood nos idos dos anos de 1940 (em função da chegada do McCarthyismo), resolveu se estabelecer no leste da cidade e assim fundar o - hoje famoso - Berliner Ensemble (Grupo de Berlim) com sua esposa Helene Weigel. Embora sendo um cidadão portador do cartão-comunista ou seja, aqueles que aderiram ao regime do DDR na época, Brecht conseguiu gerenciar e manter sua conta bancária na Suíça intacta até a ocasião de sua morte. Fato que o auxiliou na independência política do grupo, subsistindo então sem a necessidade de se dobrar a regimes ou condutas governamentais.

De alguma forma, embora entre muitas diferentes fases, algumas crises e constantes lutas para se manter e se afirmar sem a presença dele, o grupo sobreviveu apos morte de seu líder máximo – ocorrida em 1956 – e pelos trinta anos seguintes passou a ser, não somente o guardião de sua legendária obra, como também ousou continuar inovando nos palcos com textos clássicos e contemporâneos, incluindo inclusive Shakespeare, em seu repertório, porém tendo como linha mestra os temas que pudessem abranger e enfatizar as reflexões ligadas as questões sociais e seus conflitos de classes. Um dos grandes diretores que por lá passou apos Brecht foi Heiner Muller, também dramaturgo alemão, que soube conduzir e dirigir muito bem o grupo na excelência da encenação e no foco de seus trabalhos.

Como sabemos, Brecht era profundamente envolvido com o estudo e a observação das relações humanas e como elas são afetadas ou determinadas pelas forcas econômicas que as envolve e este sempre foi o epicentro de seu trabalho de dramaturgia. Completamente orientados por esta visão, o grupo tomou como bússola essa busca do autor (e mestre) em seu eixo central, porem desdobrou suas abordagens em outros também bastante expressivos, textos de autores que não Bertold, estes, somando-se a esta busca com outras angulações sobre as mesmas questões. O teatro deles se tornou, a partir de então, conhecido por sua brilhante abordagem sobre temas políticos em suas peças, principalmente num momento em que a cidade de Berlim se via envolvida num caos político e econômico, período anterior ao da queda do muro. Mas, entretanto, foi justamente nas décadas posteriores a morte de Brecht, que o Berliner Ensemble perdeu-se um pouco do próprio eixo, desde o da exclusividade na direção, até enfrentamentos estéticos e naturalmente também os conflitos internos no grupo, que se sentiu quase que órfão e sem o brilho presente e constante do autor, passando assim a realizar performances de Brecht em peças que sofreram uma sucessão de trocas de diretores em seus estilos diferenciados. Coisa inédita para eles ate então. Apesar de, contudo, estarem logo após esta crise, sob a boa diretriz de Heiner Muller, por um longo período. Muitas águas passaram, críticas positivas e negativas aconteceram. Uma delas foi o também falecimento de Muller, há mais de uma década. E as coisas desde então - depois desta onda de oscilações - mudaram muito e hoje podemos dizer que mudaram ate então para melhor inclusive, desde que o também diretor Claus Peymann retornou ao grupo, trazendo de volta para a casa, os espectadores fiéis e amantes do teatro, que se aprazem em assistir os aclamados clássicos adaptados, mantendo assim o núcleo original do grupo afinado em uníssono na intenção e na realização das montagens.

Na verdade, o que era necessário e urgente era um teatro que trouxesse de volta e a tona, todo o poder do imaginário de sua audiência e que perguntasse questões sobre o mundo, tornando novamente o espectador num observador com a capacidade de ação e não apenas num receptor passivo. Em Brecht, as coisas não são resolvidas ou respondidas de imediato para facilitar ao publico sua digestão psicológica e os espectadores são levados a um ponto tal que são obrigados a encarar os problemas da história e lidar com suas dores e suas facetas sabendo que na maioria das vezes não terão mesmo um final feliz ou mesmo um desfecho de moral da história.

No teatro de Brecht, o ator/atriz não passa simplesmente a fazer parte, mas ao invés ele (ou ela) precisa estar atento(a) e hábil para olhar de fora e assim entender qual a parte que esta fazendo, operando naquela orquestra de personagens, qual sua função política ali naquele momento de interatividade com sua platéia. Ele passa a perceber o quanto é um puro fio condutor na dinâmica, um instrumento afinado que se estende entre audiência e texto para fazer soar o retimbre da trama. E ao fazer, ele percebe então que passa a fazer parte dessa mesma audiência/público como um elemento organicamente integrado no puzzle. Este seria o complemento perfeito entre as partes para se entender o autor e sua proposta. E esta é a linha condutora da sutil arte deste grupo que busca sobreviver e passar o recado do dramaturgo, investigando a vida e suas relações políticas e econômicas, seus jogos de poder e opressão, contando sempre a partir de histórias que revelam o cotidiano, o porque as pessoas vivem, a forma como vivem e o fazem, o que faz suas vidas continuarem e aonde existe ou esta um lugar a salvo, onde elas possam se questionar e pensar sobre si mesmas, seus fluxos e esses círculos de ação e/ou manipulação inseridos na sociedade, geralmente muito a revelia do cidadão comum.

Para qualquer fã e/ou amante das pecas de Brecht, uma visita ao teatro do Berliner Ensemble é algo realmente impressionante e culturalmente recompensador. Além de toda a história e carga política inseridas no contexto de sua trajetória, o prédio localiza-se perto do rio Speer (Speer river), e o Ensemble theatre (ou Theater Am Schiffbauerdamm) traz uma elegância toda própria e peculiar em si mesmo. Ele se encontra preservado exatamente como era nos tempos idos de Bertolt Brecht. A altura e profundidade do palco são de tirar o fôlego de qualquer um que por ali passa, levantando suspiros de real emoção artística. E para acrescentar todo esse conhecimento ali presente e impregnado nas paredes, também se encontram as produções mais recentes e derradeiras de Heiner Muller, cuja fama como dramaturgo, teórico teatral e diretor é incomparável em toda a contemporaneidade da Alemanha - depois da extensa vida e obra de Brecht. Além desses dois grandes expoentes, também ali presente encontramos uma sofisticada qualidade de atores, em criativa alquimia. E entre eles Martin Wuttke, um dos mais aclamados e premiados atores alemães do momento, segundo seu público e as revistas especializadas em teatro no país, assim como também na Europa.

Próxima estréia teatral do grupo :

Dia 29 de abril de 2005 – Encenação do Texto de Bertolt Brecht /Hanns Eisler : “ DIE MUTTER”

Site official (em alemão): http://www.berliner-ensemble.de

Endereço do teatro : Bertolt-Brecht-Platz 1 (Schiffbauerdamm) – Mitte – Berlin – 10117

Veja fotos do elenco (espetáculo Shock Headed Peter):

http://www.shockheadedpeter.com/frame_cast.html