Sinto-me no dever de lhe contar tudo que vi desde
que cá chegamos, a exatos 500 anos após o descobrimento desta
terra.Viajamos muito e, juro, o relato que se segue nada mais é
do que minhas honestas impressões.
Mais uma vez, partimos de Belém; junto lá
ao monumento aos descobridores, agora. Ao contrário de Cabral, seguimos
de táxi para o aeroporto que nos levaria à nossa antiga colônia.
Embarcamos às 23:45 do dia 21 de Abril de 1999, e na manhã
seguinte já avistávamos um bocado de terra que entregava-se
as carícias das brancas espumas atlânticas.
Estas areias branquinhas pareciam seguir por toda
costa do país, pois iam muito além de onde nossa vista conseguia
alcançar. Ficamos muito impressionados; jamais havíamos visto
tamanha extensão litorânea de uma só vez. Infelizmente,
não pudemos nos deter a uma análise mais profunda, em um
primeiro momento. O avião seguia deslizando sobre o céu azul
e límpido do Brasil, tal e qual seu formoso hino enaltece.
Aterrissamos na cidade do Rio de Janeiro, num aeroporto
muito grande e movimentado. Por ali passavam muitos estrangeiros, gente
de todo tipo; todos muito apressadinhos, a maioria enfiada em ternos apertados,
rostos banhados em suor devido ao calor superior a 30 graus. Achavámo-nos
felizes e encalorados, sentindo as primeiras gotas de suor a escorrer,
assim pela pele ardente, como que contagiada por uma febre tropical.
Não querendo perder tempo, seguimos em direção
das areias brancas,as quais vislumbramos lá do alto. Homens, mulheres
e crianças infestavam as praias, tal como enxame de vespas agitadas
numa tarde de verão. Chegamos mais perto, porém ninguém
pareceu perceber-nos. Afinal, não são mais como os antigos
nativos, que aproximaram-se de Cabral e seus homens cheios
de curiosidade e cuidados.
Despreocupados: assim nos pareceram estas pessoas.
Espichavam-se nas areias quentes, vestindo fatos de banho tão sumários,
que deixavam muito pouco, ou mesmo nada, para a imaginação.
Não pareciam ter qualquer pudor e, enfim, mesmo as crianças
exibiam os corpos dourados com tamanha inocência e graciosidade,
que ali nos deixamos ficar por horas a fio, admirando-os enquanto banhavámo-nos
nas aguás muito límpidas e mornas.
No dia seguinte, pusemo-nos a descer pela costa
em direção ao sul.E, chegando lá, fomos muito bem
recebidos pelos habitantes do porto, em Rio Grande: abraços, sorrisos,
muita curiosidade sobre de onde vínhamos e um convite para um churrasco.
Aceitamos de imediato,pois ansiávamos por experimentar as iguarias
desta terra: não ficamos decepcionados. As carnes macias, cobertas
por sal grosso e algo que pareceu-nos uma combinação de vinagre
com especiarias, levemente coradas por dentro, saciaram-nos plenamente.
No instante seguinte, ofereceram-me a receita,aconselhando-me a prepará-la
para o Senhor, quando de nossa volta.
Devo confessar ao Senhor que enquanto os habitantes
do Rio de Janeiro possuíam um tom de pele dourado, e as mulheres
eram pouco providas de peito mas bem servidas de ancas, ealém de
possuírem um temperamento mais dinâmico, os sulistas pareciam-nos
quase europeus. Pessoas de pele muito branquinha, com bochechas rosadas
e saudáveis, mulheres com poucas ancas e muito busto, que pareciam
muito cordiais e controladas, escondendo todo o vigor do sangue italiano
que por lá corre, escondidinho.
Naquela noite ainda, nos despedimos deles pois pretendíamos
rumar ao Norte e ao Nordeste. Arrumamos nossas mochilas, desmontamos nossas
cabanas e discutímos sobre a Floresta Amazônica. Procuramos
por informações, olhamos fotos e imaginamos como seria este
primeiro contato com uma floresta luxuriante: talvez encontraríamos
a maior folha da Floresta Amazônica, que possui 2,5 metros de comprimento!
Talvez encontrássemos os saguis-leãozinhos, do tamanho de
escovas de dentes, tão frágeis.
Por outro lado, pensamos na extensão de terra
que percorreríamos, atravessando a floresta inteira. Olhamos para
nossas tendas de náilon, tão gastas; olhamos para nossas
mochilas, que mal continham provisões o bastante para 3 dias, o
que nos obrigava a parar diariamente para nos abastecer. Estava acima de
nossas condições, naquele momento. Decidimos, pois, que seguíriamos
para Nordeste.
Em 1º. de Maio chegamos à Bahia. Como
já esperávamos, as praias predominavam no local. O calor
lá superava os 40 com frequencia e as roupas eram tão sumárias
quanto no Rio de Janeiro. Vinhámos acostumados ao tempo fresco,
de brisa suave, do Sul e, até aclimatarmo-nos,descansamos sob palmeiras
altas, cujas folhas ondulavam com a brisa mormacenta. Tínhamos muita
sede e bebemos água diretamente de dentro de um côco verde,
bastante gelado. Sabia a água normal, apenas ligeiramente mais adocicada,
e eu, particularmente, achei-a mais saborosa.
Andamos muito por Salvador, onde mulheres de pele
cor de chocolate e vestes exuberantes de rendas brancas vendiam acarajés:
uns bolinhos muito apimentados e salgados, feito com uma receita toda especial.
Assistimos apresentações de danças folclóricas,
de origem africana, chamadas de capoeira, enquanto almoçávamos
um vatapá numa mesa, na beira da calçada.
Nos instalamos numa cidade, chamada Prado, ao norte
de Porto Seguro, e a leste do Atlântico. Atrevi-me a sair em caminhada
sozinha, por entre a vegetação litorânea e avistei
um pedaço de mata atlântica, onde vi uma samambaia de metro
e meio de altura. Toquei-lhe as folhas verdes, acetinadas e resisti à
tentação de roubar-lhe uma folha, para enviar aos seus
cuidados. Acredito que ainda teremos tempo para fotografar mais da
vegetação local, coletar mais algumas receitas de cada região
e, assim, relatar com maior riqueza de detalhes as nossas descobertas.
Ficaremos ainda algum tempo por aqui. Despeço-me
assim, com humildade, aconselhando-o a passar vossas férias neste
paraíso. Este país é, com certeza promissor no que
diz respeito ao entretenimento e o turismo.
Enviado por: Eliane Malpighi