JOSÉ NÊUMANNE
Poeta e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde, comentarista da Rádio Jovem Pan e do SBT e autor de Solos do silêncio – poesia reunida


Coluna de 20/07

(próxima coluna: 27/07)


ELEITOR DECIDIRÁ SE PT PODE REESCREVER O PASSADO PARA CONTROLAR O FUTURO

O ditador georgiano Josef Djugashvili, o "papai" Stalin, ídolo do chefe da Casa Civil, comissário José Dirceu, eliminava os adversários da vida e da história, apagando suas imagens dos flagrantes dos grandes acontecimentos. Nem sempre nessa ordem: Lev Trotsky foi apagado das fotos antes de ter a nuca rachada pelo quebra-gelo do agente do Komintern Ramón Mercader, no México. O tiranete albanês Enver Hoxha, herói do presidente nacional do PT, José Genoino, na juventude, mandava eliminar os parceiros para ninguém descobrir que era homossexual. Obcecados em aparecer bem no futuro, os comunistas cuidavam de reescrever o passado.

Os petistas, também. Sob as ordens do obstinado comissário do povo para a Comunicação Luís Gushiken, Duda Mendonça contratou atores para interpretar garbosos camponeses "beneficiados" pela política de apoio à agricultura familiar do governo federal. Desmascarado o truque, os comerciais sumiram. E seu criador ora presta serviços à tentativa de manter na Coroa Imperial de Dom Lula, o Único, sua mais preciosa jóia, a Prefeitura de São Paulo.

Também trabalhava sob as ordens dele a redatora que, na primeira quinzena de setembro, pescou, em meio à tropicalista enxúndia do ministro da Cultura, Gilberto Gil, uma vaga referência ao "fascismo da mídia". E a inseriu numa entrevista, para fazer circular a mentira de que ele teria usado esse argumento em defesa do projeto da Ancinav no boletim Em questão. Citada a infâmia pelos jornais, Sua Excelência tratou de limpar a própria barra e a imaginativa redatora foi demitida.

Na segunda quinzena do mesmo mês, a frase em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedia votos para Marta Suplicy na inauguração de uma obra pública em São Paulo sumiu, por encanto, da versão oficial da íntegra do discurso pelo qual o chefe do governo viria a pedir desculpas.

Agora, o site da Presidência da República deixou durante meses de fazer referência à passagem do ministro Maurício Corrêa, entre junho de 2003 e maio passado, pela Presidência do Supremo Tribunal Federal. A agência de notícias Consultor Jurídico registrou a omissão e o erro, atribuído a um acidental engano cometido pela Biblioteca da Presidência, foi corrigido. Maurício Corrêa que, na presidência do STF, se comportou como líder sindical da magistratura e não como chefe de Poder, ganhou, então, a oportunosa ensancha de posar de herói das liberdades feridas. "É um resquício da ditadura, uma vingança contra mim", protestou. Com razão.

Não dá, é claro, para arquivar a hipótese de ter havido simplesmente mais uma lambança do comissário Gushiken. Afinal, pelo visto, apreço pela verdade e pela pluralidade de opiniões não parece ser o ponto forte de sua atuação no comando da Secretaria de Comunicação da Presidência. Estranho apenas é o fato de nenhum desses grotescos episódios de falsificação e tentativa de empulhação ter merecido da chefia punição ou sequer uma recriminação pública. Ele continuar impávido impune, tendo adulterado tantas vezes informações tão comezinhas, só pode gerar a suspeita de que a distorção dos fatos históricos em benefício dos interesses políticos do partido no poder é uma estratégia escrachada de manutenção desse poder.

É que os petistas dividem o gênero humano em amigos do peito e inimigos figadais, conforme as circunstâncias que possam atender aos interesses do grupo em certo instante. Por isso, neste momento em que o partido se lança a uma aventura que considera de vida e de morte em São Paulo, o ex-alcaide Maluf, antes "nefasto", passou a ser, do dia para a noite, o benemérito construtor dessa obra "de grande importância social, meu filho", como disse a senhora prefeita ao filho roqueiro em visita à periferia, em troca de um punhado de votos que ele, coitado, talvez nem tenha muita chance de entregar.

Felizmente para o Brasil e, ao que parece, infelizmente para o partido no poder, contudo, Gushiken não é Hoxha. Nem Marta, Stalin! Numa democracia (e, apesar dos pesares, aqui temos uma), essas tentativas canhestras de reescrever o passado para ampliar o poder de mando no futuro podem ser corrigidas em periódicas visitas dos eleitores às urnas. Como esta a ser feita em 11 escassos dias. É só esperar e pagar para ver se o povo é tolo e tem mesmo a memória tão fraca como essa gente espertinha pensa que tem. Eu, hein, Rosa?

Esperança e ética, substantivos femininos (*)

Em 1984, me dei a complexa e espinhosa missão de fazer um inventário de minha geração – aquela que veio à luz logo após a Segunda Guerra e, portanto, viveu em plena Guerra Fria, sob a ameaça permanente do desabamento do cogumelo atômico sobre suas cabeças. A tarefa era complicada, porque essa geração praticamente reinventou o mundo sob os signos da revolução marxista-leninista, especificamente a empreendida pelos guerrilheiros de Sierra Maestra, e da reviravolta dos costumes, com cabelos longos e idéias ambiciosas, do amor livre ao Nirvana químico das drogas. Entre "o povo unido jamais será vencido" e o "sexo, drogas e rock and roll", os sobreviventes do sonho, cuja morte foi anunciada, em teoria, pelo anglo-saxão John Lennon, e, realizada na política, pelo eslavo Mikhail Gorbatchov, viraram o mundo pelo avesso, mas ainda não lhes (nos) é dado saber se isso, afinal, foi bom, mau ou simplesmente inócuo para o gênero humano.

Durante dois decênios, convivi com o gosto amargo do malogro na boca e com uma espécie de paralisia criativa que condenou à morte todos os embriões de texto com os quais pensei tirar do nada o testamento dessa saga, antecipada por Albert Camus e Jean-Paul Sartre nos cafés de Saint Germain-des-près e levada a efeito por Fidel Castro e Che Guevara em Cuba, Lennon e Mc Cartney em Abbey Road, Bob Dylan e Allen Ginsberg no Village, Godard e Glauber nas telas de cinema, Gabeira e Gal nas "dunas do barato", etc. Tudo parecia vão até o dia em que me deparei com uma filmagem fiel do romance que não havia escrito: o filme As invasões bárbaras, do canadense Denys Arcand. Daí, foi só sentar diante do computador e nele arquivar as 544 páginas de meu nono livro, o romance-inventário O silêncio do delator, que acaba de ser lançado pela Girafa Editora.

No começo desse jorro, veio só bile: a utopia revolucionária na política levou ao Estado totalitário brutal, que produziu o pesadelo do Gulag na União Soviética e das prisões castristas apinhadas de dissidentes, liberais, gays ou antigos companheiros de estrada traídos no trajeto; e o sonho da liberação sexual dos grilhões moralistas do passado virou o pesadelo da Aids e o purgatório indecente da "galinhagem" descarada. Até que no meio desses esgotos institucionais e emocionais apareceu uma pedra preciosa, um diamante sem jaça, mas cheio de graça: o salto da mulher. Um salto altíssimo, sem rede, no chão do real. Não foi uma heureca nem uma iluminação na estrada de Damasco, mas apenas a conseqüência natural do desenvolvimento da narrativa, um nó que desatava em vez de atar no fio em pleno meio da meada. À medida que a narrativa avançava, célere, computador adentro, eu entregava o resultado ao analista Humberto Mariotti. E este, em certo instante, exclamou: "mas só tem filho da puta neste seu romance!" Responder o quê? Negar? Mas ele tinha razão! E, aí, no seio daquele ninho de víboras brotou uma flor sem veneno: Esmé, inspirada no conto Para Esmé, com amor e sordidez, de J. D. Salinger (in Nove Estórias), cuja obra-prima, O apanhador no campo de centeio, considero, ao lado de O estrangeiro, de Albert Camus, um dos pontos altos da ficção no século 20, em qualquer língua.

Junto com Esmé, veio a consciência de que, se houve alguma contribuição ética daquela geração, a minha e a de muitos leitores de meu romance, ela foi dada pela mulher. A pílula anticoncepcional a liberou da injusta conexão entre o prazer e a mecânica reprodutiva: ela deixou de ser matriz para ser agente, senhora de seu corpo e de sua vida. E isso a tornou livre para pensar, escrever e governar. Não que antes da geração a que me refiro não tenha havido mulheres que se tenham destacado em atividades políticas ou culturais. Seria tolice negar o óbvio. Mas a verdade é que foram as mulheres do pós-guerra que banalizaram a presença do gênero nessas atividades, dando um novo bafo criativo ao sopro da invenção e recuperando a natureza ética de que este se havia perdido.

Meu romance termina sem que o protagonista e o autor descubram quem, afnal, tinha razão no conflito básico (leitmotiv) tecido na narrativa: se a geração dos anos 60 terá mesmo mudado para melhor a trajetória do homem sobre a Terra (realizando o raciocínio de Heráclito de Éfeso, segundo o qual ninguém toma banho na mesma água quando vai a um rio) ou se apenas repetiu ciclicamente o que fizeram seus ancestrais e será imitada pelos descendentes (confirmando Hegel, para quem a História somente se repete... sempre). Mas de uma coisa não resta dúvida: esperança é um substantivo do gênero feminino. Ética, também. Gabriele d’Anunzio, o grande prosador italiano, tinha razão ao defender em seu romance Identificazione di una donna/Identificação de uma mulher, que foi adaptado para o cinema por outro gênio, Luchino Visconti: "a redenção da humanidade está na mulher".

Se duvida, leia as extraordinárias experiências traduzidas nos textos selecionados por Sílvia Bruno Securato para este livro.

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N. E.: (*) Prefácio do articulista para a coletânea de textos sobre a condição feminina da editora Oficina do Livro. Clique aqui  para ler, também, a fortuna crítica que o romance de Nêumanne, O silêncio do delator, começou a amealhar desde o último fim de semana.

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