Coluna de Rogel Samuel 
Rogel Samuel é Doutor em Letras e Professor aposentado da Pós-Graduação da UFRJ. poeta, romancista, cronista, webjornalista.
Site pessoal: http://www.geocities.com/rogelsamuel

Nº 142 - 2ª quinzena de outubro 2008
(atualização quinzenal, dias 10 e 25)

O 1º capítulo deste importante romance mereceu matéria de página inteira no Jornal "Amazonas em Tempo", em 13/12/07.
Clique aqui para ler a reportagem na íntegra

FOTOS DE ALGUNS PERSONAGENS (FILETO PIRES FERREIRA, EDUARDO RIBEIRO, W. SCHOLZ, ETC.) E LUGARES DO "TEATRO AMAZONAS" EM: http://www.flickr. com/photos/ 12439475@ N05/sets/ 72157603842512154/

"TEATRO AMAZONAS"
(Romance inédito - Último capítulo)


            22. A PISTOLA ROSS EDINBURG

           
Naquela noite Waldemar Scholz descia a Avenida do Palácio com o Barão de Solimões, Manuel Francisco Machado.
            Machado era político famoso, senador, latinista, aliado de Guerreiro Antony e futuro Governador. Sempre na oposição, Machado dirigia o jornal do partido, “O liberal”, cujas oficinas ficavam em sua própria casa, na Rua Henrique Martins.
            No Governo Pedro de Alcântara Bacelar, sua casa foi bombardeada ao amanhecer pela artilharia inimiga a dez metros de distância do outro lado da rua.
            Ele e sua família tiveram de fugir pelos fundos escalando o muro e os seguranças da casa, que não fugiram, foram mortos e os cadáveres arrastados pelas ruas de Manaus.
            Nunca se fez inquérito policial sobre o caso.
            O Barão retirou-se para Óbidos, onde morreu na miséria. Mas ele tinha sido Presidente da Província, ou Governador, era Comendador da Ordem da Rosa, Comendador da Ordem de Cristo, Deputado Constituinte de 1891 e Senador da República.
            O fato está esquecido, apagado da história do Amazonas até hoje.

            Quando Scholz e Machado entraram na “Farmácia Studart”, que ficava na esquina da Avenida do Palácio, hoje Eduardo Ribeiro, com a Rua Municipal, hoje Sete de Setembro, foram recebidos por Sr. Carlos Studart, o proprietário.

            Carlos Studart era cearense. Filho de inglês. Estudou em farmácia em Salvador e depois voltou para Fortaleza, onde abriu sua “Farmácia Studart” depois transferida para Manaus, onde corria muito dinheiro.
            Em Manaus, Studart viveu 30 anos e fazendo 12 viagens à Europa.
            Em 1921 liquidou seus negócios em Manaus e mudou-se para São Paulo, onde se tornou um próspero industrial, produzindo o seu famoso “Leite de Colônia”, conhecido até hoje e invenção sua.

            Studart morreu milionário, aos 103 anos, no Rio de Janeiro.
            Carlos Studart era homem franzino e baixo, e tinha um problema vocal, que o impedia de pronuncia certas sílabas. Disse ele com sua voz fanhosa:
            — Que novas trazem os amigos?
            — Como está nosso doente? — perguntou Machado ao farmacêutico, referindo-se a Lima Silva.
            — Melhorou. Parece ótimo. Está com ótimo humor! Eu o vi ontem, sacudido como sempre.

            Lima Silva tinha atravessado uma de suas crises conjugais, mas Studart fabricava um remédio que Lima Silva tomava nessas ocasiões, e que era uma fórmula especial que até podia matar se tomada erradamente e por isso só vendia para os amigos.

            Ao sair da Farmácia, Scholz apressou-se a ir sozinho para a casa de Lima Silva, que encontrou muito bem disposto.
            Lá, Lima Silva levou-o para ver uma novidade, que tinha comprado recentemente.
            Abrindo uma gaveta, de lá tirou um estojo de carvalho.
            — Veja isso, disse Lima Silva, orgulhoso.
            Era uma pistola Ross Edinburgh.

            O estojo tinha guarnições e fechos de prata embutidos. O interior vinha forrado de seda de tons verde, e no verso da tampa havia uma etiqueta com figuras e uma inscrição.

            — Arma rara, disse Scholz. Arma excelente, acrescentou, empunhando aquela jóia. É uma pistola escocesa. Perfeita, disse, examinando a mira do cano octogonal, de ante-carga, que tinha gravado na parte superior a inscrição "Ross Edinburgh", com figuras vegetais na culatra. O fecho lateral de percussão trazia o mesmo tipo de gravação.

            O alemão estava fascinado.
            — Vamos à sopa, concluiu.
            E saíram para jantar.

O que Lima Silva não disse era que, com aquela arma, ele tinha acabado de matar sua mulher Marinalva e o ex-governado Eduardo Ribeiro.

FIM DO “TEATRO AMAZONAS”

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